Sempre que sobram uns milhares de euros na conta, há um reflexo quase nacional: atirá-los ao crédito da casa. Abater capital, tirar peso de cima. Faz-se com aquela sensação de dever cumprido de quem arruma a cozinha antes de se ir deitar.
Percebo o impulso. Cerca de três em cada quatro famílias em Portugal vivem em casa própria (RTP), e a dívida ao banco pesa-nos mais na consciência do que na carteira.
O que quase ninguém faz é a conta antes de decidir. Quando a fazemos, ela diz coisas menos arrumadas do que o impulso: às vezes amortizar é a melhor aplicação sem risco que tens à mão, outras vezes é dar dinheiro ao banco sem necessidade. E há uma segunda decisão, tomada trinta segundos depois da primeira, ao balcão, com o mesmo tom com que perguntam se queres o extrato em papel, que no exemplo deste artigo pesa mais do que a amortização em si.
Vamos por partes.
Amortizar não é gastar, é uma aplicação sem risco
Este é o reenquadramento que arruma metade da confusão.
Quando amortizas 10 000€ num crédito que te cobra 3,3% ao ano, deixas de pagar juros sobre esses 10 000€. São uns 330€ no primeiro ano que ficam no teu bolso. Garantidos, sem imposto, sem volatilidade, sem teres de torcer para que alguma coisa corra bem lá fora.
Por outras palavras: amortizar o crédito da casa é matematicamente idêntico a fazer uma aplicação sem risco que rende exatamente a taxa do teu empréstimo. Nem mais um cêntimo, nem menos.
Se amortizar já é investir, então a pergunta “amortizo ou invisto?” estava mal feita. A pergunta que resta é esta:
Existe, lá fora, um sítio sem risco onde o meu euro renda mais do que a taxa do meu crédito?
Se a resposta é não, amortizar ganha. Se é sim, investir ganha. O resto são detalhes, alguns deles importantes.
A única taxa que importa é a tua
Para responderes precisas de dois números, não de uma opinião.
O primeiro é a TAN do teu crédito. Num crédito à habitação de taxa variável, que é a esmagadora maioria em Portugal, essa taxa é a Euribor mais o spread que negociaste com o banco. O spread é a margem do banco e está fixado no contrato; a Euribor flutua. Está na tua última carta de revisão de prestação, com o número exato, e não vale a pena estimar quando o valor certo está a um envelope de distância.
O segundo número é o que rende, hoje, uma alternativa igualmente sem risco. Os candidatos naturais são os Certificados de Aforro e o depósito a prazo, que já comparei no artigo sobre onde pôr o dinheiro que sobra. E aqui está o pormenor que troca as voltas a muita gente: nesses produtos pagas 28% de IRS sobre os juros. Se um Certificado rende 2,5% brutos, no teu bolso ficam 1,8%. É esse valor líquido que entra na comparação.
Do outro lado, o retorno de amortizar já é líquido por natureza. Não pagas imposto sobre juros que deixaste de pagar. Não há nada a declarar, porque não houve rendimento nenhum, só uma despesa que desapareceu.
Isto desequilibra a comparação muito mais do que parece. Para um produto seguro bater o teu crédito, não lhe basta render um bocadinho mais: tem de render mais depois dos 28%. Um crédito a 3,3% equivale a uma poupança segura a 3,3% líquidos, o que exige uns 4,6% brutos num produto tributado. Aplicações sem risco a pagar 4,6% não são coisa que apareça todos os dias.
Contas Feitas
São dois números, e os dois estão em papéis que já tens. A TAN vem na carta de revisão da prestação e a taxa bruta vem da ficha do produto.
A alternativa rende 1,8% depois de imposto. Para bater o teu crédito, precisaria de render 4,6% brutos.
Falta preencher um valor.
O retorno de amortizar já é líquido: não pagas imposto sobre juros que deixaste de pagar.
Hmm, mas Micael, e quando a Euribor dispara?
É a objeção certa, e a resposta que se costuma dar está incompleta. Quando a Euribor sobe, sobe a tua prestação e sobe também o que rendem os Certificados, porque seguem o mesmo indexante. Até aí andam de mãos dadas. Só que não andam simetricamente: o teu spread está fixo e não tem teto nenhum, enquanto cada série de Certificados tem uma taxa máxima escrita na ficha técnica em igcp.pt. Acima desse teto, o crédito continua a subir e o Certificado fica onde está.
Ou seja, amortizar torna-se relativamente melhor precisamente nos cenários em que as taxas fogem. Abaixo do teto, o que interessa não é o número da Euribor, é o espaço entre as duas taxas.
A pergunta ao balcão: prazo ou prestação?
Suponhamos que decidiste amortizar. Vem então a pergunta administrativa: “quer reduzir a prestação ou o prazo?”
A maioria responde “a prestação”. É a resposta natural, porque é a única das duas que se sente já no mês seguinte.
Vamos aos números, num crédito comum: 150 000€, 30 anos, TAN de 3,3%. A prestação são 657€ e, se nunca amortizares nada, pagas 86 496€ de juros até ao fim. Amortizas 10 000€ e tens dois caminhos.
| Baixar a prestação | Encurtar o prazo | |
|---|---|---|
| Prestação | desce para 613€ | mantém-se em 657€ |
| Prazo | continua 30 anos | 26 anos e 9 meses |
| Juros até ao fim | 80 729€ | 70 992€ |
| Poupança face a não amortizar | 5 767€ | 15 504€ |
A tabela é para um crédito de 150 000€ a 30 anos. Põe o teu capital em dívida, o teu prazo e a tua TAN, e vê as duas opções lado a lado com a tua amortização.
Sem amortizar, a prestação é 657 € e pagas 86 496 € de juros até ao fim.
Baixar a prestação: 613 € por mês durante 30 anos, 80 729 € de juros, menos 5 767 € do que não amortizar.
Encurtar o prazo: manténs 657 € por mês durante 26 anos e 9 meses, 70 992 € de juros, menos 15 504 € do que não amortizar.
Nessa última hipótese a derradeira prestação é mais pequena, 116,93 € em vez de 657 €.
Em euros de hoje as duas opções valem exatamente o mesmo, 140 000 €. A diferença de 9 737 € é o retorno dos 44 € por mês que encurtar o prazo continua a pôr no crédito.
Falta preencher um valor.
A conta não inclui a comissão de amortização antecipada, 0,25% no crédito de taxa variável e 0,5% no de taxa fixa, nem o que rendia esse dinheiro fora do crédito.
Repara no que a última linha diz. Amortizar os 10 000€ e baixar a prestação poupa 5 767€ em juros. Amortizar exatamente os mesmos 10 000€ e encurtar o prazo poupa 15 504€. A caixinha que assinalas no balcão vale 9 737€, quase o dobro do que vale a amortização em si.
É neste ponto que este artigo costuma acabar, e é onde eu também teria acabado se não tivesse feito a conta até ao fim.
Porque é que esses 9 737€ não são o que parecem
A frase que costuma acompanhar esta tabela é “o mesmo esforço, o mesmo dinheiro, e quase o dobro da poupança”. A segunda parte é verdade. A primeira não é.
Encurtar o prazo não é o mesmo esforço. É pagar 44€ a mais, todos os meses, durante mais de vinte e seis anos. Esses 44€ não caem do céu: saem do teu orçamento, mês após mês, e é deles que vêm os 9 737€.
E se descontarmos o tempo, para pôr as duas opções em euros de hoje, acontece uma coisa que eu não esperava quando montei a folha de cálculo: as duas valem exatamente o mesmo. Ambas são 140 000€. Não aproximadamente, não quase. Exatamente, ao cêntimo.
E faz sentido, porque cada euro que metes no crédito rende exatamente a taxa do crédito. Os 44€ mensais que a opção “encurtar o prazo” continua a injetar no empréstimo rendem 3,3%, tal como os 10 000€ iniciais. Os 9 737€ são o resultado desses 44€ a render 3,3% durante 26 anos, escritos em euros nominais de um futuro distante. Não são um bónus por teres escolhido bem, são o retorno normal de dinheiro que continuaste a pôr lá.
Então porque é que eu continuo a preferir encurtar o prazo
Porque a equivalência só existe no papel, e o papel assume uma coisa que quase ninguém faz.
As duas opções empatam se, e só se, aplicares os 44€ que a prestação mais baixa te liberta, todos os meses, a render pelo menos os 3,3% líquidos do crédito, durante vinte e seis anos e nove meses, sem falhar. Se os aplicares a menos do que isso, sais a perder. Se os deixares na conta à ordem, sais a perder bastante. E se te limitares a ficar com um mês um bocadinho mais folgado, que é o que acontece na esmagadora maioria dos casos, os 9 737€ não vão para lado nenhum, simplesmente deixam de existir.
Já tinha esbarrado nisto quando fiz a conta da Netflix: o dinheiro que deixas de gastar não se investe sozinho. Cancelas a subscrição, os 13€ ficam na conta misturados com o resto e desaparecem até ao fim do mês. Aqui é o mesmo mecanismo com outro casaco.
Visto assim, encurtar o prazo não é aritmética mais inteligente. É aritmética que não podes cancelar. Estás a fazer com o crédito da casa aquilo que faço com a poupança quando me pago a mim primeiro: tirar a decisão de cima da mesa antes de ela ter hipótese de competir com um fim de semana fora.
Vale a pena dizer o contrário também. Se a prestação de hoje já te aperta, baixá-la é uma decisão sobre dormir descansado, não sobre rendimento, e essa também tem valor. E se és mesmo das pessoas que transfere os 44€ para uma aplicação no dia a seguir ao ordenado, todos os meses, sem falhar, então a escolha volta a ser genuinamente indiferente e podes ficar com a flexibilidade.
As contas exatas dependem do teu capital em dívida e da tua taxa. O simulador do teu banco faz isto, e o Portal do Cliente Bancário do Banco de Portugal também.
A comissão que assusta mais do que custa
“Mas o banco não cobra uma comissão por amortizar?” Cobra, e a lei limita-a. Num crédito de taxa variável a comissão de amortização antecipada está travada em 0,25% do montante que abates; num crédito de taxa fixa, em 0,5% (Decreto-Lei 74-A/2017). Tens ainda de avisar o banco com alguns dias úteis de antecedência.
Vê a dimensão da coisa: 0,25% sobre 10 000€ são 25€. É menos do que muita gente paga num ano só em comissões de manutenção de conta, e essas não abatem capital nenhum a lado nenhum. Desistir de amortizar por causa da comissão é assustar-se com o cêntimo e ignorar o euro.
Uma ressalva a confirmar antes de avançares: em certos períodos têm existido medidas que suspendem temporariamente esta comissão nos créditos de taxa variável. Se estiver em vigor uma dessas medidas, o custo é zero.
A variável que a folha de cálculo não mostra
Até aqui a matemática dá vitória quase sempre a amortizar. Então porque é que eu não me precipito?
Por uma palavra: liquidez.
O dinheiro que atiras ao crédito desaparece. Não o vais lá buscar. Se daqui a oito meses ficares sem emprego, o banco não te devolve os 10 000€ para te aliviar uns meses; continuas a ter de pagar todos os meses, agora com menos almofada do que tinhas antes. Amortizar é trocar dinheiro líquido por uma poupança certa mas presa nas paredes de casa.
O dinheiro numa aplicação segura continua teu e à mão. Isso tem um valor que não aparece em lado nenhum na comparação de taxas: o valor de poderes mudar de ideias. Como o teu emprego, a tua saúde e as taxas de juro são todos incertos, manter a porta aberta custa alguma coisa, e às vezes compensa pagar esse custo, abdicando de meio ponto de rendimento para saber que tens dinheiro a que chegas amanhã de manhã. É a ideia que o Taleb passou uma carreira a explicar melhor do que eu conseguiria aqui.
Por isso, no meu caso, nada disto se põe antes de ter o fundo de emergência cheio e bem guardado. Amortizar com o fundo por construir é trancar a porta de casa e atirar a chave lá para dentro. Sentes-te seguro até ao dia em que precisas de entrar.
Feito o fundo, a matemática favorece amortizar cedo em vez de aos poucos, porque os juros incidem sobre o capital em dívida e sobre o tempo durante o qual ele lá esteve. Mas cedo nunca quer dizer antes.
E se em vez disso investisse num ETF?
Esta pergunta aparece sempre, e a resposta é que são animais diferentes.
Amortizar dá um retorno garantido, líquido, igual à tua TAN. Um ETF de ações tem um retorno esperado mais alto e volátil, que pode passar anos negativo pelo meio. Comparar as duas coisas só faz sentido se aquele dinheiro puder mesmo ficar quieto dez ou vinte anos, sem o ires buscar no primeiro susto, porque é isso que separa o retorno esperado do retorno que realmente vais ter. Nos pressupostos que uso no resto do site, o retorno real de longo prazo das ações fica acima de qualquer TAN de crédito habitação recente. A diferença é que uma das duas colunas tem uma garantia atrás e a outra tem uma média histórica.
É também aqui que a ideia de fundo do Warren Buffett se aplica sem romantismo nenhum: o que interessa não é o dinheiro estar a mexer, é estar no sítio onde rende mais depois de impostos e de risco. Às vezes esse sítio é o mercado. Noutras alturas é o teu próprio crédito, que é a única aplicação que te garante um retorno igual à taxa que já estás a pagar.
O caso especial dos créditos anteriores a 2012
Se assinaste o crédito até ao final de 2011, há uma ruga fiscal que muda a conta: ainda podes deduzir uma parte dos juros no IRS. Ao amortizares, pagas menos juros e perdes parte desse benefício. Não é razão para nunca amortizar, mas é uma variável a mais para a folha de cálculo. Para créditos assinados a partir de 2012 o benefício já não existe e a conta fica mais limpa.
Não sou consultor financeiro nem nada que se pareça, sou alguém que gosta de poupar dinheiro e de fazer contas em folhas de cálculo. As regras fiscais mudam, por isso confirma a tua situação concreta antes de decidires seja o que for.
Uma régua, não uma regra
O que fica no fim não é uma resposta, é uma maneira de chegar lá.
Amortizava sem hesitar se o spread do meu crédito fosse alto e nenhum produto seguro batesse a minha TAN depois dos 28%, se tivesse o fundo de emergência feito, e se dever menos ao banco me valesse mais do que meio ponto de rendimento. Nesse caso encurtava o prazo, e não pela aritmética, mas porque assim não tenho de me portar bem durante vinte e seis anos.
Não amortizava, e investia, se o spread fosse baixo e houvesse aplicações seguras a render acima da minha TAN líquida, ou se manter o dinheiro à mão me valesse mais do que a poupança marginal nos juros.
Repara que a resposta vira conforme o ambiente de juros. É suposto virar. Quem decidiu “amortizar é sempre bom” há uns anos pode estar hoje a fazer o oposto do que a conta recomenda. A disciplina não está em escolher um lado de uma vez por todas, está em refazer a conta do spread quando as taxas mudam.
O euro que abates ao crédito e o euro que investes não são inimigos. É o mesmo euro à procura do sítio onde rende mais, e esse sítio muda.
Se já amortizaste, o que é que o banco te disse quando falaste em reduzir o prazo em vez da prestação?


