Certificados de Aforro, depósito a prazo ou ETFs: onde colocar o dinheiro que sobra no fim do mês

Certificados Aforro

A pergunta que toda a gente faz é “qual é o melhor”. Passei tempo a mais à procura dessa resposta antes de perceber que ela não existe, e que a pergunta certa é outra, muito mais aborrecida:

Quando é que vou precisar deste dinheiro?

Parece uma diferença pequena e não é. Um ETF do mundo inteiro é provavelmente a coisa mais segura desta lista para dinheiro que só vais tocar daqui a vinte anos, e é a mais perigosa para dinheiro de que podes precisar para o mês. É o mesmo produto, com o mesmo risco, e o veredito inverte-se por completo só por causa de uma data.

É por isso que “qual é o melhor produto” não tem resposta. O risco não é uma propriedade do produto, é a relação entre o produto e o teu calendário.

As três perguntas antes de qualquer taxa

Uso as mesmas três perguntas que uso para o fundo de emergência, porque servem para tudo:

  • Em quanto tempo tenho isto na conta? Horas, dias, ou “quando o mercado deixar”.
  • Pode valer menos no dia em que eu precisar? Não é “pode ter um ano mau”, é “pode estar em baixa exatamente no dia errado”.
  • Perco alguma coisa por o tirar mais cedo? Juros, comissões, benefícios fiscais devolvidos.

A taxa é a quarta pergunta, sempre. Se a fizeres em primeiro lugar acabas com dinheiro do carro dentro de um ETF, o que funciona muito bem até ao dia em que não funciona nada.

Separa o dinheiro por objetivo, não por produto

Antes de comparar seja o que for, vale a pena arrumar o dinheiro em três montes, porque cada um tem uma lógica diferente:

Liquidez imediata. Dinheiro de que podes precisar a qualquer momento: as despesas do mês, o fundo de emergência. O que importa é chegar depressa e não valer menos. A rentabilidade é secundária, e digo isto com todas as letras.

Médio prazo. Dinheiro que não vais tocar nos próximos seis a vinte e quatro meses, mas que tem um destino: obras, carro, uma viagem grande. Aqui já se pode exigir rendimento, desde que não haja risco de perder capital.

Longo prazo. Dinheiro que não precisas nos próximos cinco a dez anos ou mais. É aqui que a rentabilidade conta a sério e onde a volatilidade deixa de ser um problema para passar a ser o preço de entrada. É também aqui que entra a hipótese de amortizar o crédito da casa, que é uma espécie de investimento sem risco à taxa do teu empréstimo.

O erro caro quase nunca é escolher o produto errado. É pôr o dinheiro de um monte no produto de outro.

A conta à ordem, e o que ela custa mesmo

Toda a gente tem dinheiro parado aqui. Quase ninguém sabe quanto isso custa, porque o custo nunca aparece como um débito.

A conta à ordem em Portugal não rende pouco, rende zero. E se ainda lhe estiveres a pagar comissão de manutenção, rende abaixo de zero antes sequer de a inflação entrar na conversa. Com uma inflação de 2,3%, que é uma hipótese moderada, 10 000€ parados durante dez anos passam a valer o equivalente a 7 924€ de hoje. Perdeste 2 000€ sem que nada tenha acontecido, sem notificação nenhuma, e o extrato continua a dizer 10 000€.

Isto não quer dizer que a conta à ordem seja má. Quer dizer que ela serve para uma coisa só: o dinheiro em trânsito, o do mês, e a fatia do fundo de emergência que tem de estar disponível em minutos. Para essas funções não há nada melhor. Para armazém, não presta.

Já agora, confirma que essa conta não te está a cobrar manutenção, porque aí estás a pagar para perder poder de compra, o que é uma combinação difícil de bater. Escrevi sobre isso nas comissões bancárias.

Certificados de Aforro

São dívida do Estado português, subscrita diretamente ao IGCP, sem intermediário e sem comissões. Estiveram anos esquecidos com taxas irrisórias e voltaram à conversa quando as taxas de juro subiram.

Como se subscreve. A conta aforro abre-se presencialmente, num balcão dos CTT ou num Espaço do Cidadão. Depois de aberta, subscreves e resgatas online no AforroNet, que é a plataforma do próprio IGCP, sem voltar a sair de casa. Não é preciso banco nenhum, e não há comissão de subscrição nem de resgate. Vale a pena tratar da abertura antes de precisares dela, porque é a única parte que obriga a deslocação.

Como rende. A taxa acompanha a Euribor, mas cada série tem regras próprias: um limite máximo, um prémio de permanência que cresce com os anos, e um prazo mínimo antes de poderes resgatar. Isto muda de série para série, e a ficha técnica da série em vigor está em igcp.pt. Ler essa ficha antes de subscrever é o melhor uso de dez minutos em todo este artigo.

O senão. Os primeiros três meses não se resgatam. É pouco tempo, mas chega para desqualificar os Certificados como o sítio único do fundo de emergência.

E agora a parte que raramente se lê. No momento em que escrevo isto, a taxa bruta da série em vigor anda pelos 2,474%. Depois dos 28% de retenção na fonte, sobram 1,78%. Se a inflação for 2,3%, estás a perder 0,5% por ano em poder de compra.

Aqueles mesmos 10 000€, ao fim de dez anos, valem 9 492€ em vez dos 7 924€ da conta à ordem. Continua a ser muito melhor. Mas é importante ver o que isto é de verdade: não é uma forma de fazer o dinheiro crescer, é uma forma de travar a hemorragia. Um produto seguro protege-te do risco de mercado, não da inflação, e quando alguém te diz que “pelo menos não perde”, o que está a dizer é que não perde em euros. Em poder de compra, perde quase sempre.

Depósito a prazo

O produto mais antigo e o mais fácil de perceber: entregas um valor durante um prazo, recebes uma taxa acordada no fim.

Um aviso antes das vantagens: o depósito que o teu banco te propõe ao balcão costuma render pouco mais do que zero. Os que valem a pena existem, mas são campanhas, com prazos e condições, e há que ir procurá-los. Um depósito a prazo não é bom por ser depósito a prazo, é bom se a taxa for boa.

Faz mais sentido do que os Certificados quando a taxa oferecida for superior à deles nesse momento, e quando queres uma taxa fixa. Repara que escolher entre fixo e indexado é, no fundo, uma aposta sobre para onde vão as taxas: se achas que descem, fixar é bom negócio, e se achas que sobem, é mau. Ninguém sabe, portanto o critério útil não é adivinhar, é escolher aquilo com que dormes bem.

Três coisas para vigiar, todas elas escritas na ficha do produto e nenhuma delas dita ao balcão:

  • Mobilização antecipada. Em muitos perdes os juros todos, e há depósitos que nem sequer deixam levantar antes do prazo.
  • Taxas só para dinheiro novo. A promoção é para quem chega, e quem já é cliente costuma ficar com a taxa velha. Vale perguntar diretamente.
  • O prazo. Quanto mais longo, mais incerteza tens sobre onde estarão as taxas quando aquilo terminar, e mais tempo estás sem poder mudar de ideias.

Os depósitos estão cobertos pelo Fundo de Garantia de Depósitos até 100 000€ por titular e por banco. Os Certificados não: esses dependem do Estado português pagar, que é um risco diferente, nem melhor nem pior, apenas outro.

ETFs e fundos de índice

Um ETF é um fundo que replica um índice inteiro. Em vez de escolheres empresas, compras um bocadinho de todas as que estão no índice, o que resolve o problema de escolher mal sem precisares de perceber nada de nenhuma delas em particular.

Sobre a rentabilidade, convém ter cuidado com os números que circulam. Ouve-se muito “7% a 10% ao ano”, e isso são retornos nominais, antes de descontar a inflação. O número que interessa é o real, e no artigo da Netflix usei 6,76% ao ano, que é a média histórica de um índice específico já ajustada à inflação. É uma média de longo prazo, não uma promessa, e a ordem dos anos maus conta: dez anos maus no início de um plano de trinta doem muito mais do que no fim.

Há aqui uma vantagem estrutural que quase nunca entra nestas comparações, e é grande. Nos Certificados e nos depósitos, os 28% saem todos os anos, à cabeça. Num ETF só pagas quando vendes. Isso quer dizer que, durante todo o tempo em que não vendes, também a parte que um dia será do Estado continua a render para ti.

Com 10 000€ a 6,76% durante trinta anos:

Ao fim de 30 anos
A pagar 28% todos os anos41 609€
A pagar 28% só no fim54 038€

São mais 12 400€, quase 30% a mais, com exatamente o mesmo rendimento bruto. A diferença toda está em quando o imposto sai. É esta a razão pela qual o longo prazo não é apenas “mais tempo”, é um jogo com regras diferentes.

O que não são. Não são poupança de curto prazo, não são alternativa ao fundo de emergência, e não são garantia de nada. Podem cair 30% num ano e demorar anos a recuperar.

O que custa a sério. Precisas de conta numa corretora, e aí há comissões de compra e de custódia que variam muito entre elas. O fundo tem uma comissão anual embutida, a tal que aparece como TER e que te sai do rendimento sem nunca a veres a ser cobrada. E do lado fiscal, mais-valias declaram-se, contas no estrangeiro também, e isso é trabalho de IRS que não existe nos Certificados. Nada disto é impeditivo, mas é o preço de entrada e devia ser conhecido antes e não depois.

PPR

Vale um parágrafo, porque muita gente o descarta com um “isso é para a reforma”.

Há dois animais muito diferentes com o mesmo nome: os PPR seguros, de capital garantido, e os PPR fundos, que se parecem mais com um ETF e podem perder valor. Comprar um a pensar que é o outro é o erro mais comum aqui.

A vantagem é fiscal: deduz-se no IRS uma parte do que se aplica, com um tecto anual que desce à medida que a idade sobe. O senão é a liquidez: levantar fora dos casos previstos na lei obriga a devolver o benefício com penalização, o que o inutiliza como poupança de médio prazo. Se quiseres perceber qual é qual, tenho um descomplicómetro de PPR.

A tabela, arrumada pela pergunta certa

ProdutoQuando o tens na contaPode valer menosServe para
Conta à ordemImediatoNão, mas perde para a inflaçãoO mês, e o dinheiro em trânsito
Certificados de AforroDias, após o prazo inicialNãoMédio prazo, e a parte de trás do fundo de emergência
Depósito a prazoSó no fim, ou com perda de jurosNãoUm objetivo com data marcada
ETF ou fundo de índiceDias, ao preço do diaSim, e muitoDinheiro a cinco ou dez anos de distância
PPRAnos, ou com devolução do benefícioDepende do tipoReforma, com desconto fiscal

Repara que a coluna do risco desapareceu, e não foi por esquecimento. O risco não está nesta tabela porque não está nos produtos: está no cruzamento entre a linha que escolheres e a data em que vais precisar do dinheiro.

Por onde se começa

A ordem que faz sentido para a maior parte das pessoas é sempre a mesma, e é a mais aborrecida possível: primeiro o que é preciso para o mês, depois o fundo de emergência, depois o médio prazo, e só depois o investimento a longo prazo. Sem a base feita, a primeira despesa grande obriga a vender o investimento no pior momento, e aí não interessa nada que o produto fosse bom.

Não vou dizer-te quanto pôr em cada sítio, porque isso depende da tua vida, mas as nove regras que sigo todos os meses explicam como é que essa ordem se torna automática em vez de depender de eu me lembrar.

O que fica

Se tiveres de guardar uma frase deste artigo, guarda esta: antes de perguntares quanto rende, pergunta quando é que precisas dele.

Um ETF que cai 25% é um não-acontecimento se aquele dinheiro só é preciso daqui a vinte anos, e é um desastre se era a entrada da casa que ias dar no mês seguinte. O produto é o mesmo nos dois casos. O que muda é o calendário, e o calendário é a única parte desta história que tu controlas.

E há sempre a hipótese mais simples de todas, que é olhar para a conta à ordem e ver há quanto tempo está ali dinheiro sem destino nenhum. Se a resposta for mais de três meses, esse é o primeiro problema a resolver, e resolve-se numa tarde.


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