Há uma coisa que torna as comissões bancárias diferentes de quase tudo o resto sobre que escrevo neste site: se as deixares de pagar, não perdes nada.
No supermercado, cortar despesa é escolher entre marcas, ou entre tamanhos, ou entre comprar hoje e comprar para a semana. Há sempre uma decisão em cima da mesa. No combustível a mesma coisa. Aqui não. A conta à ordem que te custa 8€ por mês faz exatamente o mesmo que a conta à ordem que te custa zero: guarda o dinheiro, dá-te um cartão, deixa-te fazer transferências. Não estás a pagar por um serviço melhor. Estás a pagar por não teres olhado.
E é por isso que este é, provavelmente, o melhor negócio que existe em finanças pessoais: uma hora de trabalho, uma vez na vida, e o encargo desaparece para sempre.
Porque é que a comissão existe
Vale a pena perceber o mecanismo antes de olhar para os números, porque é o mecanismo que explica tudo o resto, incluindo o facto de a negociação funcionar.
Manter uma conta à ordem não custa 8€ por mês ao banco. Custa cêntimos. A comissão não está lá para cobrir um custo, está lá porque tu ficas. E o valor tende a ser calibrado por aquilo que o banco calcula que te custa sair: o ordenado domiciliado, os débitos diretos da luz e da água, o IBAN que já deste a meio mundo, a papelada do crédito. Quanto mais entrelaçada está a tua vida com aquele banco, mais alto pode ser o número sem que te mexas.
Repara no que isto implica. A comissão não é o preço da conta. É o preço que o banco acha que tem de te cobrar para tu não te dares ao trabalho de mudar. Quando ligas a dizer que estás a pensar sair, não estás a pedir um favor, estás a informá-lo de que calculou mal.
O número certo é por ano, não por mês
Um cliente típico de banco tradicional em Portugal paga qualquer coisa entre 6€ e 12€ por mês só de manutenção de conta, e isso antes de anuidades de cartões, levantamentos fora da rede e o resto. São 72€ a 144€ por ano.
Estes valores são de quando escrevo isto e mudam com frequência, mas o que interessa não é o valor: é a unidade. As comissões são cobradas ao mês, e em parcelas pequenas, porque é assim que ficam abaixo do limiar em que uma pessoa reage. Ninguém muda de banco por 8€. Muita gente mudaria por 96€, que é exatamente o mesmo dinheiro.
É a mesma mecânica do preço riscado de que falei no artigo sobre promoções: o número não está errado, está apresentado de forma a ser comparado com a coisa errada. Contra o teu ordenado, 8€ não é nada. Contra o que aquilo faz por ti, que é zero, 96€ por ano é caro.
E se quiseres ver o número inteiro, ele é maior do que 96€. Aplicando os mesmos pressupostos que usei no artigo da Netflix, 6,76% de retorno real por ano e 28% de IRS sobre os ganhos, 10€ por mês investidos em vez de pagos ao banco dão isto, em euros de hoje:
| Ao fim de | O que pagaste ao banco | O que terias, depois de IRS |
|---|---|---|
| 10 anos | 1 200€ | 1 559€ |
| 20 anos | 2 400€ | 4 248€ |
| 30 anos | 3 600€ | 9 109€ |
Não digo isto para te convencer de que a comissão bancária te vai arruinar a reforma. Digo porque estes números são a resposta a uma pergunta que toda a gente faz e quase ninguém responde: vale mesmo a pena chatear-me por 8€?
O que aparece na tua conta, e o que fazer com cada coisa
O preçário do teu banco é um documento público e obrigatório, e é onde está tudo. Procura no site por “preçário” ou “tabela de comissões”. É um PDF longo e desagradável, mas as linhas que interessam são poucas.
Antes de abrires qualquer conta, o banco é ainda obrigado a entregar-te um documento normalizado com as comissões, por causa do Decreto-Lei n.º 107/2017. Existe mesmo, e é por isso que ninguém se pode queixar de não ter sido informado. Também é por isso que ele está escrito de maneira a ser assinado sem ser lido, o que é uma forma elegante de cumprir a lei sem cumprir o objetivo dela.
As linhas a procurar:
- Manutenção de conta. A mais comum e a mais fácil de eliminar. Quase todos os bancos tradicionais isentam mediante condições: ordenado domiciliado, saldo mínimo, um número de compras com cartão por mês. Muitas vezes basta pedir.
- Anuidade dos cartões. Débito e crédito, cobradas em separado. Há cartões de débito com anuidade zero em quase todo o lado, e o cartão de crédito que nunca usas é uma anuidade a sair todos os anos por nada.
- Transferências. Aqui há uma confusão que vale a pena desfazer. Não é verdade que as transferências SEPA sejam gratuitas por lei. O que a lei europeia obriga é a que uma transferência em euros para outro país da União não te custe mais do que a mesma transferência dentro de Portugal. Se o teu banco cobra 0€ nas nacionais feitas online, também não pode cobrar nas europeias. Se cobra ao balcão, continua a poder cobrar.
- Levantamentos fora da rede. Entre 1€ e 2,50€ por operação, o que dá para passar dos 90€ por ano em três levantamentos por mês. É a comissão mais fácil de evitar sem mudar nada: mudar onde levantas.
- Extrato em papel. Continua a existir, continua a custar, e o extrato digital é grátis.
- Inatividade. Se tens uma conta antiga esquecida, é provável que esteja a ser comida por esta. Fechar contas que não usas é meia hora bem passada.
O direito que o banco não te vai lembrar
Existe desde 2012 e a maior parte das pessoas nunca ouviu falar dele: a conta de serviços mínimos bancários.
Qualquer pessoa residente em Portugal tem direito a abrir uma, em qualquer banco que opere no país, com uma comissão de manutenção anual limitada por lei a uma fração do indexante dos apoios sociais. Na prática, alguns euros por ano em vez de uma centena. Inclui cartão de débito, homebanking, levantamentos na rede do banco e um número de transferências SEPA por mês, e o Banco de Portugal explica as condições em vigor, que convém consultar porque o limite é atualizado.
Não serve para toda a gente. Tem limites de operações e não inclui cartão de crédito, portanto para quem movimenta muito fica curta. Mas para quem usa o banco para receber o ordenado, pagar meia dúzia de coisas e levantar dinheiro, chega perfeitamente.
O banco é obrigado a informar que ela existe. Não é obrigado a fazê-lo com entusiasmo, e não faz.
Bancos digitais, e o que perdes com eles
A saída mais óbvia é um banco sem balcões, que não cobra manutenção nem anuidade de cartão de débito.
Não vou fazer aqui uma lista de nomes, e a razão é a mesma que me leva a escrever estes artigos como escrevo: os nomes mudam. Bancos digitais fecham, são absorvidos, mudam de condições, aparecem outros. Uma lista escrita hoje está errada daqui a três anos, e a única lista que está sempre certa é a das instituições autorizadas a operar em Portugal, que o Banco de Portugal mantém pública. É lá que se confirma se aquela aplicação bonita é mesmo um banco supervisionado, e é a primeira coisa a fazer antes de lá pôr dinheiro.
O que não muda são as quatro perguntas a fazer antes de migrar:
- Onde levanto dinheiro sem pagar, e quantas vezes por mês? Alguns limitam.
- O que acontece quando alguma coisa corre mal? Sem balcão, o apoio é por chat ou telefone. Para o dia-a-dia funciona. Para um bloqueio de conta, uma fraude ou papelada de crédito, pode ser bem mais lento, e é aí que vais precisar dele.
- Está coberto pela garantia de depósitos? Os bancos supervisionados na União Europeia estão, até 100 000€ por depositante e por instituição. Não é detalhe: é o que separa um banco de uma aplicação que guarda dinheiro.
- Tem os produtos de que preciso? Crédito habitação, crédito pessoal, PPR. Os mais simples não têm.
A resposta a estas quatro leva muita gente ao mesmo sítio, que é onde eu estou: dois bancos ao mesmo tempo. Um digital para o quotidiano, sem comissões, e um tradicional só para os produtos que o outro não faz. É perfeitamente legal e não tem inconveniente nenhum.
E tem uma vantagem lateral de que falei no artigo sobre o fundo de emergência: a segunda conta é um sítio excelente para guardar dinheiro que não queres ter à mão. O atrito de ter de abrir outra aplicação, que é um defeito quando queres pagar o café, passa a ser uma qualidade quando o objetivo é não tocar naquilo.
Antes de mudares, liga-lhes
Mudar de banco tem um custo real de fricção: domiciliar o ordenado outra vez, redirecionar os débitos diretos, cartões novos, IBAN novo para dar a toda a gente. Existe um serviço de portabilidade que obriga o banco antigo a entregar-te a lista dos débitos domiciliados, e pedir essa lista antes de fechar a conta poupa-te dois meses de sustos.
Mas antes de passar por isso, há uma chamada a fazer, e já contei o que aconteceu quando a fiz à MEO. O guião é o mesmo, e o essencial dele não é o que dizes, é chegares à conversa já a saber qual é a tua alternativa concreta. Não “vou mudar de banco”, mas “a conta X não me cobra manutenção nem anuidade, e eu estou a pagar-vos 96€ por ano”.
A partir daí, o banco tem margem que nunca oferece por iniciativa própria: isenção de manutenção, anuidade a zero, remoção de serviços que tu nunca pediste e que estão lá desde 2014. Se ceder, resolveste o problema sem mexer no IBAN. Se não ceder nada, também ficaste a saber uma coisa útil sobre o valor que te atribui.
Para saberes qual é a tua alternativa, o Banco de Portugal tem um comparador de comissões onde vês, lado a lado, o custo anual de vários bancos para o teu perfil de utilização. É gratuito, é público e quase ninguém o usa.
Como descobrir o que pagas hoje
Nada disto funciona sem primeiro saberes o número, e a maior parte das pessoas não sabe.
No homebanking, filtra os últimos doze meses e procura os movimentos com “comissão”, “encargo”, “anuidade”, “manutenção” e “imposto do selo”, que anda sempre agarrado às comissões e é fácil de esquecer. Soma tudo. É este total anual, e não a linha de 5,50€ do mês passado, que responde à pergunta de se vale a pena.
Depois compara essa soma com o preçário, para veres quais das linhas são evitáveis e quais são a tal manutenção que se resolve com um telefonema. E aproveita para procurar aquilo que já nem sabias que tinhas: cartões extra, seguros associados à conta que ninguém te explicou, contas antigas abertas para uma coisa qualquer que acabou há seis anos.
Mesmo que a app do banco não seja grande coisa, consegues fazer isto tudo em menos de uma hora.
Porque é que isto vale mais do que parece
Chego ao ponto que, para mim, é o mais importante deste artigo, e que não é sobre bancos.
As poupanças não são todas do mesmo tipo. Umas exigem atenção permanente: comparar preços ao quilo, resistir às ilhas da entrada dos supermercados, decidir todas as semanas. Fazem falta, mas custam-te alguma coisa todos os dias, e a coisa que te custam é atenção, que é o recurso de que já andas curto. Se falhares uma semana, a poupança dessa semana perdeu-se.
Outras fazem-se uma vez e ficam feitas. Cortar a comissão de manutenção, tirar a anuidade do cartão que não usas, fechar a conta esquecida. Fazes numa manhã e o efeito repete-se sozinho todos os meses durante anos, sem que voltes a pensar no assunto. Não há disciplina nenhuma a manter, porque não há decisão nenhuma a repetir.
Quando olho para onde vale a pena gastar esforço, é aqui que começo, e as comissões bancárias são o exemplo mais puro da categoria. Cem euros por ano poupados de uma vez valem mais do que cem euros por ano poupados a bocadinhos, mesmo sendo o mesmo dinheiro, porque os primeiros não te voltam a pedir nada.
Não te vais lembrar disto daqui a dez anos. É essa exatamente a vantagem.
O que fica
O banco não te está a enganar. Está a cobrar-te um preço que tu aceitaste ao assinar um documento que ninguém lê, por um serviço que outros dão de graça, e a cobrá-lo em parcelas pequenas o suficiente para nunca chegares a decidir sobre elas. Continuará a cobrar enquanto isso resultar, porque do lado dele isto é uma linha de receita como outra qualquer.
A única coisa que muda o resultado é olhares uma vez para o total do ano. Depois disso, ou o banco desconta, ou tu mudas, e em qualquer dos casos ganhaste.
Admite lá: há quantos anos andas a pagar comissões sem pensar muito sobre isso?





