Não é o que decides que muda a tua vida financeira, é como decides

Nao E O Que Decides Que Muda A Tua Vida Financeira E Como Decides

Este artigo citava um estudo científico para sustentar aquilo que dizia. Fui verificá-lo e era sobre estimulação cerebral profunda para tratar dor talâmica. Não tem nada a ver com dinheiro, nem com decisões, nem com força de vontade.

E o pior nem é isso. A teoria que aquele estudo devia sustentar também já não se aguenta.

A teoria é das ideias mais repetidas que há sobre dinheiro: a força de vontade é uma bateria que vai descarregando ao longo do dia. É por isso que as compras por impulso acontecem à sexta-feira à noite, a seguir a um dia mau, com o telemóvel na cama. Eu escrevi isso aqui, a sério, com fonte e tudo.

Tirei as duas coisas do artigo. E depois aconteceu o que não estava à espera: não tive de mudar uma única recomendação.

A teoria que eu andava a usar

Chama-se esgotamento do ego e vem de um trabalho de 1998 do psicólogo Roy Baumeister e dos seus colegas. Dizia que o autocontrolo é um recurso finito, que se gasta ao longo do dia e que, quando acaba, nos deixa ceder. Foi das ideias mais citadas da psicologia durante quinze anos e passou para os livros de produtividade quase como facto anatómico.

Em 2016, vinte e três laboratórios juntaram-se para a testar como deve ser, com o protocolo registado antes de recolherem um único dado, em 2 141 pessoas. Não encontraram efeito nenhum. Deu 0,04, que em linguagem corrente quer dizer indistinguível de zero. Em 2021 repetiu-se o exercício com 3 531 pessoas, desta vez conduzido por investigadores que tinham defendido a teoria a vida toda, e o resultado foi o mesmo.

Quanto ao estudo trocado, não sei como é que ali foi parar. Sei que esteve publicado assim e que o endereço respondia sem dar erro nenhum, que é precisamente o que torna estas coisas difíceis de apanhar.

E agora a parte que me interessa mais do que a correção em si. Quando se arranca a fundação de um argumento e o edifício não se mexe, aquilo não era fundação nenhuma. Era decoração.

Então porque é que os sistemas ganham?

Repara nas datas. Pagar-te a ti primeiro é conselho escrito em 1926. As transferências permanentes existem desde que existe banca de retalho. Os clubes de poupança de Natal, em que as pessoas entregavam uma quantia por semana a alguém que só lhes devolvia o dinheiro em dezembro, funcionavam em pleno século XIX. Nada disto precisou de neurociência para funcionar, e tudo isto continuou a funcionar depois de a neurociência se ter desdito.

A razão pela qual um sistema ganha é bem mais simples, e bem menos impressionante, do que uma bateria que descarrega:

Um sistema não precisa que concordes com ele no momento em que corre.

É só isto. Quando a transferência sai no dia a seguir ao ordenado, ninguém me pergunta se me apetece. O meu eu de sexta-feira à noite não tem direito de voto porque a votação já foi feita, num dia em que eu estava sentado à secretária a olhar para números em vez de estar cansado a olhar para um cesto de compras.

Não é uma afirmação sobre biologia. É uma afirmação sobre calendário: quem decide primeiro decide melhor, porque decide sem pressa e sem o assunto em cima.

Uma decisão por defeito é uma decisão já tomada

Chamo decisão por defeito àquilo que fica decidido de antemão e passa a aplicar-se sozinho, a menos que haja uma razão concreta para a substituir naquele dia.

O meu exemplo favorito não é de dinheiro. Meço com alguma regularidade a variabilidade da minha frequência cardíaca, que é um indicador de recuperação e de stress, coisa em que fui parar por causa da corrida. Os dados são consistentes a dizer que álcool depois das 18h me estraga o sono e os valores do dia seguinte. Por isso o meu comportamento por defeito é não beber álcool depois das 18h. Não decido isso todas as noites, está decidido. Se houver um jantar que valha a pena, substituo a regra conscientemente e sem culpa nenhuma. Mas a posição de partida existe, e existir é metade do trabalho.

Nas finanças, a versão disto é a transferência automática no dia a seguir ao vencimento, que é pagares-te a ti primeiro. Não decido cada mês se vou poupar. Está decidido, e o que sobra é que é para gastar. A regra das 72 horas antes de qualquer compra não essencial, que também está lá, é a mesma coisa aplicada ao outro lado da conta.

E aqui, ao contrário do esgotamento do ego, há evidência a sério e que aguentou. Em 2001, dois economistas estudaram uma empresa americana que mudou a inscrição no plano de reforma. Antes, quem entrava tinha de preencher um papel para aderir. Depois, passou a estar inscrito à partida e tinha de preencher um papel para sair. Nada mais mudou: nem o plano, nem as contribuições, nem os salários, nem a explicação dada às pessoas. A adesão dos recém-contratados subiu 48 pontos percentuais.

E há um caso ainda mais claro, porque não é sobre dinheiro nenhum. Compara a Áustria com a Alemanha em doação de órgãos. Fazem fronteira, falam a mesma língua, têm a mesma história religiosa e respondem praticamente o mesmo quando lhes perguntam num inquérito se acham bem doar. Na Alemanha, onde é preciso dar o nome para ser dador, ficam registados 12%. Na Áustria, onde se é dador salvo declaração em contrário, ficam 99,98%. A diferença inteira está em que lado do formulário fica a caneta.

Portugal é dos segundos. Desde 1993 que somos todos dadores por omissão, e quem não quiser tem de se inscrever no Registo Nacional de Não Dadores. Não é uma opinião sobre doação de órgãos, é a demonstração mais limpa que conheço de que a posição de partida decide quase tudo, mesmo em coisas em que as pessoas juram que têm uma opinião firme.

Vale a pena ficar um momento com o que isto quer dizer, porque não é lisonjeiro. Aquelas pessoas não passaram a perceber melhor de reformas de um dia para o outro. O que mudou foi qual das duas opções exigia preencher um papel. A inércia é mais forte do que a intenção, e trabalha para ti ou contra ti consoante quem tenha configurado a posição de partida.

Na maior parte da tua vida financeira, essa posição foi configurada por outra pessoa. A renovação automática do seguro, o plano de telecomunicações que se prolonga sozinho, o cartão que vem com uma anuidade a partir do segundo ano. Não é conspiração, é desenho: quem faz o formulário sabe exatamente isto, e o formulário não é feito por ti.

Medir serve para configurar, não para ter vergonha

Um sistema precisa de sinal, senão não há como o afinar. E medir tem má fama porque toda a gente assume que serve para nos sentirmos mal com o que já gastámos, quando serve para decidir o que fica automático a seguir.

Não é preciso nada de complicado. As perguntas que faço uma vez por mês são três:

  • Para onde foi o dinheiro, por categoria e não só no total?
  • Há algum gasto recorrente que eu não tenha decidido ativamente manter?
  • O meu património líquido, que é o que tenho menos o que devo, subiu ou desceu?

Se o dinheiro desaparece sempre na mesma categoria e eu não me lembro de ter decidido isso, ali está uma posição de partida configurada por outra pessoa. Se o património líquido não sobe ao longo de vários meses, a estrutura não está a fazer o que eu pensava que estava.

Um mês com números concretos diz-me mais do que seis meses de intuição sobre para onde vai o dinheiro, e a intuição costuma estar errada na direção que menos convém.

Dois filtros que uso antes de gastar

Charlie Munger, o sócio de Warren Buffett, descrevia o pensamento como uma rede de modelos vindos de disciplinas diferentes, em vez de uma especialidade só. Há muito para aprender com essa abordagem, e há dois que uso quase todas as semanas.

O custo de oportunidade. Qualquer decisão de gastar X euros é ao mesmo tempo uma decisão de não investir X euros. A pergunta deixa de ser “isto vale este dinheiro?” e passa a ser “isto vale mais do que aquilo que este dinheiro faria por mim em dez ou vinte anos?”. É exatamente a conta que fiz à subscrição da Netflix, e o que muda não é a resposta, é a escala em que a pergunta é feita.

A inversão. Em vez de “como poupo mais?”, a pergunta é “o que me impede de poupar mais?”. Raramente a resposta é ganhar mais. Quase sempre é um gasto que ninguém decidiu manter, ou um assunto que ficou em aberto.

Nenhum destes filtros substitui pensar. O que fazem é dar a pensar um sítio por onde começar, que é o que costuma faltar.

Os assuntos em aberto custam duas vezes

Um assunto em aberto é qualquer coisa que ficou por resolver e que continua a ocupar-te um bocadinho da cabeça mesmo quando não estás a pensar nela.

O seguro automóvel que sabes há seis meses que devias comparar. A subscrição que já não usas e ainda não cancelaste. O tarifário que renovou sozinho e que nunca chegaste a rever. Cada um custa duas vezes: custa a atenção enquanto está pendente, e custa dinheiro todos os meses enquanto lá está.

A parte boa é que os assuntos financeiros em aberto costumam pagar bem quando se fecham. Uma chamada de uma hora valeu-me 3 910€ com a MEO, e a parte difícil nunca foi a chamada. Foi o ano e meio que ela passou na lista antes de eu a fazer.

O que faço, uma vez por mês, é percorrer contratos e subscrições e dar a cada um uma de três respostas: resolvo agora, ou marco um dia concreto para resolver, ou decido conscientemente que fica como está. O que não existe é a quarta resposta, que é deixar em suspenso e voltar a pensar nisso para o mês.

Nunca falhar duas vezes seguidas

A regra que mais mudou a minha relação com hábitos, de dinheiro e de tudo o resto, é do James Clear, em Hábitos Atómicos: nunca falhar duas vezes seguidas.

Todos os sistemas falham de vez em quando. Houve meses em que a transferência não saiu, e semanas em que as despesas fugiram completamente ao plano. Isso não é o problema. O problema é a segunda vez seguida, porque é aí que deixa de ser um acidente e começa a ser o novo normal.

O que esta regra tem de bom é que tira o perfeccionismo do caminho, e o perfeccionismo é o que costuma matar estas coisas ao terceiro mês. Não é preciso acertar sempre. É preciso não deixar uma falha ficar acompanhada.

O que eu diria a mim próprio há dez anos

Não que precisasse de mais disciplina, que era o que eu pensava. Diria antes que a disciplina é o combustível mais caro que existe e que se lhe pode dar um trabalho muito mais pequeno.

O que sobra, feito o trabalho, é um punhado de decisões tomadas de antemão, um número por mês que diz se estão a resultar, e uma lista curta de coisas por fechar que não engorda. Nada disto é impressionante, e é precisamente por não ser impressionante que ainda cá está passados anos, ao contrário da teoria bonita que eu usava para o explicar.

Que contrato é que anda há mais tempo à espera de uma chamada tua?


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