Um guia para poupares mais todos os meses (9 regras que sigo religiosamente)

Piggy Bank

O dinheiro voa, e nem damos conta para onde vai. Seja por causa da inflação, seja por causa de despesas que não contávamos, parece que existe sempre algo que o leva até aparecer o próximo salário. E depois o ciclo repete-se.

A determinada altura tive de dizer basta. Caso contrário, pouco importava se ia receber mais, para no fim gastar mais na mesma.

Ao longo de vários anos fui construindo sistemas que me ajudassem a perceber para onde ia o dinheiro, e que medidas poderia tomar para não perder qualidade de vida ao mesmo tempo que passava a sobrar mais dinheiro por mês. São nove, e continuo a segui-las.

Fundação: o diagnóstico financeiro

1. Faz um check-up às tuas finanças

Não importa tentar poupar sem primeiro se ter noção do nosso estado atual a nível de gastos. Se o fizeres, é possível que reduzas gastos naquilo que parece estar a consumir mais dinheiro ao final do mês, mas as despesas mais subtis continuarão por aí.

Tudo o que forem gastos recorrentes tem de ser registado. Créditos, mensalidades, rendas, subscrições. Tudo, durante tempo suficiente para teres uma perspetiva geral e não uma impressão.

Eu uso a Wallet by BudgetBakers (nota: não tenho qualquer afiliação nem recebo qualquer comissão da marca), onde registo cada cêntimo usando as categorias que vêm por defeito. Mas a aplicação é o menos importante, e daqui a dez anos se calhar já nem existe. O que interessa é o princípio: não podes otimizar o que não observas. Um caderno resolve, se for isso que te fizer olhar para os números.

Agora, uma palavra sobre créditos, porque existem créditos e créditos.

O crédito da casa não é necessariamente um mau crédito, porque é aplicado sobre um bem que tende a valorizar com o tempo. A casa, mesmo a pagar ao banco, pode ser um bom negócio no longo prazo. Deves renegociar as condições sempre que possível, mas não sou especialista no tema e a melhor recomendação que te posso fazer é ler alguém experiente: o Pedro Andersson.

Sobre créditos pessoais ou do carro, sinto que já tenho uma palavrinha a dar. Os carros são bens depreciativos. Por muito que tentes justificar a compra de um carro bom, ele vai desvalorizar todos os dias a um ritmo muito maior do que a desvalorização para a inflação. Quando acabas de o pagar, já vale metade (ou nem isso) de tudo o que pagaste. Pior, ainda pagaste juros por cima.

Não sou ninguém para dar lições de moral nem é esse o meu objetivo. Para mim o tema resume-se de forma simples: ou os créditos são sobre bens apreciativos (casa, investimento num negócio com um plano bem delineado), ou sobre bens depreciativos (crédito pessoal para férias, crédito do carro). Os primeiros servem-te, os segundos fazem com que te tornes servido por eles.

Tens toda a legitimidade de comprar o que quiseres, recorrendo a crédito se necessário. Mas lembra-te: todos os meses o dinheiro que sai é um passo atrás.

Filosofia: paga a quem mais importa

2. Paga-te a ti primeiro

Como estão as prioridades por aí? Mal recebes pagas logo a conta da luz e da internet? Convido-te a inverter a sequência.

Trata-te como o teu principal credor. Mal recebes o salário, desconta 10% do valor para ti mesmo, antes de qualquer outra coisa. São lições tão antigas como as do livro «O Homem mais rico da Babilónia», cuja análise tenho registada neste blogue.

Vale a pena perceber porque é que isto funciona, porque não é evidente à primeira e demorei a perceber.

A maioria das pessoas poupa o que sobra. O problema é que aquilo que sobra é uma quantidade residual, e as quantidades residuais tendem para zero. As despesas expandem-se para ocupar o dinheiro disponível, sempre, porque há sempre mais uma coisa que faria jeito. Ao pagares-te primeiro, inverte-se o que é residual: passa a sobrar o dinheiro dos gastos, não o dinheiro da poupança. Não é uma questão de disciplina, é uma questão de ordem. E a ordem não se cansa ao fim do dia, ao contrário da força de vontade.

Mesmo que tenhas um mês miserável e acabes com 2 cêntimos na conta (quem nunca), salvaste 10% logo à cabeça. Agora imagina isto todos os meses, todos os anos.

Se já guardas esse dinheiro mas ainda está na conta à ordem, tens aqui uma comparação sobre onde o colocar. Se ainda não tens fundo de emergência constituído, é para lá que estes 10% devem ir primeiro.

Uma exceção que vale a pena conhecer. Se tiveres dívida cara, um cartão de crédito ou um crédito pessoal a 12 ou 15% ao ano, poupar 10% enquanto pagas esses juros é um mau negócio matemático. Estás a ganhar 2% de um lado e a perder 15% do outro. Nesse caso a ordem inverte-se outra vez: primeiro mata-se a dívida cara, depois é que se começa a pagar a si próprio. Guardar uma almofada mínima para imprevistos continua a fazer sentido, para não voltares a recorrer ao crédito ao primeiro susto, mas o resto vai todo para a dívida.

As pequenas mudanças que fazem a poupança acontecer a sério

3. Otimiza as idas ao supermercado

O supermercado é aquela loja enorme cheia de coisas boas. Quanto mais tempo estás exposto a tanta coisa, mais propenso estás a gastar dinheiro.

O que faço é ter uma cadência regular, segundas-feiras por exemplo, ir com tudo planeado, ir de barriga cheia e não me deixar seduzir pelas letras gordas. A regra que resume todas as outras é esta: uma coisa são grandes promoções, outra coisa são grandes preços.

Escrevi em tempos um artigo inteiro sobre como caía nas armadilhas dos supermercados e como hoje as evito, com o sentimento de urgência, as ilhas à entrada, os selos e a fome. Não vou repeti-lo aqui.

O Poupa Pilim também te serve neste aspeto, através da secção dedicada a folhetos promocionais, onde destaco os artigos que são realmente boas oportunidades.

4. Reduz a fatura do combustível

Como já deu para perceber, sou obcecado por este tema. O meu método é uma combinação de condução eficiente e planeamento, e está todo detalhado nas seis técnicas que já desvendei no blogue (por esta hora já deu para perceber que fiz o TPC antes de fazer este artigo).

Se quiseres levar só uma ideia daqui, leva esta: o travão é o teu inimigo financeiro. Cada vez que travas, estás a deitar fora combustível que já compraste para pôr o carro a andar. Conduzir a antecipar em vez de conduzir a reagir é, de longe, a técnica que mais poupa, e não custa dinheiro nenhum a adotar.

Para o resto, incluindo o timing para abastecer, a pressão dos pneus e a conta das portagens, o artigo completo trata disso melhor do que um resumo aqui trataria.

5. Ataca as faturas lá de casa

Estas são as despesas que parecem fixas, mas não são.

Renegociar é a palavra de ordem. Pelo menos uma vez por ano, uso os simuladores da ERSE (eletricidade) e da ANACOM (telecomunicações) para ver se o meu contrato ainda é o mais vantajoso. Do lado da luz, há aqui no blogue um artigo dedicado a perceber se estás a pagar o justo ou apenas o habitual.

O que mais gosto é das chamadas das próprias empresas de telecomunicações. Digo sempre “calha bem que me ligou, porque estava mesmo para acabar com o contrato atual, até porque vi uma proposta mais vantajosa de um concorrente”. Se tomares as rédeas da chamada, és tu que defines as regras do novo contrato e não o contrário. Numa dessas conversas, uma chamada de uma hora tirou-me 23€ por mês da fatura, e conto lá o guião todo.

Não deixes que os comerciais te impinjam produtos que não precisas para pagares o mesmo. Se aceitares, ficas com coisas que não querias e não tiveste vantagem nenhuma.

E nunca aceites a primeira proposta. Há sempre uma segunda, mesmo quando te dizem que não há. Se necessário, deixa a chamada ficar por aí, e dentro de uma ou duas semanas voltam ao contacto.

Vale a pena perceber porque é que isto funciona tão bem, porque não é sorte. Nenhum comercial vai deixar cair um cliente por causa de 3 ou 4€ por mês, mas para ti são 48€ por ano. Os mesmos 4€ que para eles são ruído, para ti são dinheiro. É uma assimetria a teu favor, e é rara: na maior parte das negociações da vida o lado profissional tem a vantagem toda. Aqui não, porque eles têm milhões de clientes e tu tens uma fatura. Perder-te custa-lhes muito mais do que o desconto que te dão.

É também por isso que renegociar contas recorrentes rende mais do que quase tudo o resto que possas fazer com o mesmo esforço. Uma hora ao telefone, uma vez por ano, e o efeito repete-se todos os meses sem tu voltares a fazer nada. Poucas coisas na vida financeira pagam assim.

As regras finais: otimizar o resto do ecossistema

6. Foge das comissões bancárias

Hoje em dia não faz sentido nenhum pagar comissões bancárias. Existem bancos a cobrar 6€ por mês, ou seja 72€ por ano. 72€! Para nada, por algo que outros fazem por 0€!

Há duas saídas, e a segunda quase ninguém conhece.

A primeira é mudar para um banco que não cobre. Por experiência própria uso o moey! e o ActivoBank, mas também existem o OpenBank, o N26, o Bankinter e o Revolut. Confirma como está o mercado no momento em que estás a ler isto, porque estas condições mudam depressa e esta lista é a parte deste artigo que envelhece mais depressa.

A segunda é um direito legal, e por isso não envelhece. Desde 2012 que qualquer pessoa residente em Portugal pode exigir uma conta de serviços mínimos bancários em qualquer banco que opere no país, com uma comissão anual máxima fixada por lei, muito abaixo do que custa uma conta normal. Inclui cartão de débito, homebanking, transferências e levantamentos. Tem limites no número de operações mensais, e por isso não serve toda a gente, mas para quem usa pouco o banco chega perfeitamente. Os bancos raramente to dizem, o que não te deve surpreender.

Se quiseres perceber linha a linha o que estás a pagar e o que podes cortar, tenho um artigo só sobre comissões bancárias.

7. Compra tecnologia e eletrodomésticos à vontade, mas compara primeiro

Nunca compres no primeiro sítio que vês. Utiliza comparadores como o KuantoKusta ou o Tropical Price (para a Amazon), vai aos sites dos principais retalhistas, compara preços e condições. Muitas vezes poupas literalmente centenas de euros só por veres o mesmo produto em vários lugares.

Se costumas esperar pela Black Friday, tudo bem, mas atenção ao desconto. Como disse acima para os supermercados, uma coisa são grandes promoções, outra coisa são grandes preços. Tenho um artigo com 6 truques infalíveis para a Black Friday se quiseres preparar-te melhor.

De qualquer forma, se te podes dar ao luxo de esperar, faz a pergunta: precisas mesmo, ou é algo que queres? Se é algo que queres, uso a regra das 72 horas. Nada é comprado por impulso, vai tudo para uma lista de espera de pelo menos três dias, e só se ao fim desses três dias ainda quiseres é que compras.

O que me surpreendeu foi a taxa de mortalidade dessa lista. Muita coisa que lá entra nunca chega a ser comprada, e não por disciplina: simplesmente deixo de querer. Isso diz-me que a vontade não era pelo objeto, era outra coisa qualquer a precisar de ser resolvida, e o objeto estava só à mão. Escrevi sobre essa mecânica noutro artigo, porque dá pano para mangas.

8. O lazer não tem de ser caro

Momentos de lazer não têm obrigatoriamente de envolver custos. Muitas vezes os melhores tempos livres são passados do outro lado dessa parede.

Já pensaste em fazer uma lista de tudo aquilo de que gostas? Faz, e no fim divide em duas: as que envolvem custos e as que não envolvem. Aposto que ainda não fizeste tudo o que podias fazer do lado com zero custos.

Esta é a regra mais fácil de ler e a mais difícil de aplicar, porque não é sobre dinheiro. É sobre gastarmos dinheiro para não termos de decidir o que fazer com o tempo. Pagar por um plano é a forma mais rápida de ter um plano, e é por isso que o lazer caro é tão atrativo ao domingo à tarde. A lista serve exatamente para isso: para teres uma resposta pronta quando não te apetece pensar numa.

9. Investe na tua educação financeira

Deixei o melhor para o fim. Aumentar a tua literacia financeira cria uma estrutura de pensamento sólida sobre o dinheiro. As poupanças começam a surgir de forma muito mais natural, sem andares atrás de checklists, e muito provavelmente vais até procurar outras fontes de rendimento com mais astúcia.

Este investimento pode ser feito de muitas formas: ouvir podcasts de pessoas ligadas às finanças pessoais, questionar os porquês ao teu contabilista, ler.

Sobre livros, tenho um critério que me tem servido bem, e é o mais Lindy que conheço: dá prioridade ao que continua a ser lido muito depois de deixar de ser novidade. O «Homem mais rico da Babilónia» é de 1926 e ainda hoje se lê, o que diz mais sobre ele do que qualquer recensão. Livros com dois ou três anos ainda não passaram por esse filtro, e alguns dos mais vendidos de sempre nesta área envelheceram bastante mal quando alguém se deu ao trabalho de verificar as histórias que contam. Tenho uma lista completa de livros memoráveis sobre poupança e investimento se precisares de ponto de partida, com o contexto de quando li cada um e o que me marcou.

Quanto mais sei, mais sinto que tenho que aprender. E adoro esse sentimento, porque dá um propósito à missão. Aprendo imenso a escrever estas linhas, porque me obrigam a investigar para ver se é mesmo assim como estou a pensar, e muitas vezes acabo por atualizar a minha sabedoria sobre o tema.

Uma nota sobre as nove

Reparei numa coisa ao rever isto anos depois. As regras 1 e 2 são de outra natureza das restantes: são estruturais, mudam a forma como o dinheiro se move, e funcionam mesmo quando não estás a prestar atenção. As outras sete são otimizações, exigem atenção pontual e rendem uma vez de cada vez que as aplicas.

Se só tivesses tempo para duas, seriam as duas primeiras. As outras sete são o que se faz depois, quando a base está montada. Estão por esta ordem de propósito.

E é também por isso que não me canso de pedir que partilhes nos comentários tudo o que sabes, e se concordas ou não com estas regras. Não quero que isto seja uma conversa unidirecional: existe tanto para aprender, e tu tens uma oportunidade soberana para ensinar.


Este artigo foi escrito originalmente a 02/03/2022 e revisto desde então, com o propósito de remover o que não sobreviveu ao teste do tempo e corrigir o que mudou. A lista de bancos da regra 6 e as aplicações da regra 1 são as partes que envelhecem mais depressa, e a elas volto sempre que se justifique. Agradeço toda e qualquer contribuição na caixa de comentários. Este conteúdo também é teu.


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