O dinheiro voa, e nem damos conta para onde vai. Seja por causa da inflação, seja por causa de despesas que não contávamos, parece que existe sempre algo que o leva até aparecer o próximo salário. E depois o ciclo repete-se.
A determinada altura tive de dizer basta, para tomar controlo da situação. Caso contrário, pouco importava se ia receber mais, para no fim gastar mais na mesma.
Ao longo de vários anos fui procurando construir sistemas que me ajudassem a perceber para onde ia o dinheiro, e que medidas poderia tomar para não perder qualidade de vida ao mesmo tempo que passava a sobrar mais dinheiro por mês.
É exatamente essa a proposta de valor deste artigo. Vou partilhar esses 9 truques contigo, na esperança que possas tirar partido deles. Vamos a isso?
Fundação: o diagnóstico financeiro
Não importa tentar poupar sem primeiro se ter noção do nosso estado atual a nível de gastos. Se o fizeres, é possível que reduzas gastos naquilo que parece estar a consumir mais dinheiro ao final do mês, mas as despesas mais subtis continuarão por aí.
1. Faz um check-up às tuas finanças
Tudo o que forem gastos recorrentes devem ser registados. Créditos, mensalidades, rendas da casa, etc. Tudo tem de ser registado durante algum tempo para que possas ter uma perspectiva geral das tuas contas.
Podes começar por instalar a Wallet by BudgetBakers (nota: não tenho qualquer afiliação nem recebo qualquer comissão da marca). Nesta aplicação (disponível para Android, iOS e Web) podes registar cada cêntimo que gastas, usando para tal as imensas categorias que vem por defeito. Ao fim de algum tempo vais poder ter uma ideia muito realista sobre para onde vai o teu dinheiro.
Agora que já sabes onde registar tudo, uma palavra para os créditos. Existem créditos e créditos. O crédito da casa não é necessariamente um mau crédito, é aplicado sobre um bem que tende a valorizar com o tempo. A casa, mesmo a pagar crédito ao banco, pode ser um bom negócio no longo prazo. É claro que deves renegociar as condições do crédito sempre que possível para obter o melhor valor, mas não sou especialista nesse tema e a melhor recomendação que te posso fazer é ler alguém experiente no tema: o Pedro Andersson.
Agora, sobre créditos pessoais ou do carro, sinto que já tenho uma palavrinha a dar. Os carros são bens depreciativos. Por muito que tentes justificar a compra de um carro bom, ele vai desvalorizar todos os dias a um ritmo muito maior do que a desvalorização para a inflação. Quando acabas de pagar o carro, este já vale metade (ou nem isso) de tudo o que pagaste por ele. Pior, ainda tiveste de pagar juros por cima.
Não sou ninguém para dar lições de moral nem é esse o meu objetivo. Para mim este tema resume-se de forma simples: ou os créditos são sobre bens apreciativos (casa, investimento no negócio com um plano bem delineado), ou sobre bens depreciativos (crédito pessoal para férias, crédito do carro, etc). Os primeiros servem-te, os segundos fazem com que te tornes servido por eles.
Tens toda a legitimidade de comprar o que quiseres, e recorrendo a crédito se necessário. Mas lembra-te, todos os meses o dinheiro que sai é um passo atrás na tua busca pela liberdade financeira. Se amortizares imediatamente esses créditos, ou melhor, venderes o carro caro e comprar um a pronto muito mais barato, estás a inverter o rumo das coisas a teu favor.
Filosofia: paga a quem mais importa
Como estão as prioridades por aí? Mal recebes pagas logo a conta da luz e da internet? Convido-te a inverter a sequência.
2. Paga-te a ti primeiro
Trata-se como o teu principal credor. Mal recebes o salário, desconta 10% do valor…para ti mesmo. São lições tão antigas como as do livro «O Homem mais rico da Babilónia», cuja análise ao livro e aos seus ensinamentos tenho registado neste blogue. Se o fizeres, ficas com a garantia de reforço de almofada financeira, e depois tens os restantes 90% para tudo o resto.
Mesmo que tenhas um mês miserável e acabes com 2 cêntimos na conta (quem nunca), conseguiste salvar 10% logo à cabeça. Agora imagina isto todos os meses, todos os anos. É fácil perceber que ficas logo no comando das tuas finanças.
As pequenas mudanças que fazem a poupança acontecer a sério
Agora que já tens a base, vamos entrar na fase de otimização de cada cêntimo.
3. Otimiza as idas ao supermercado
O supermercado é aquela loja enorme cheia de coisas boas. Quanto mais tempo estás exposto a tanta coisa, mais propenso estás a gastar dinheiro.
O que te posso recomendar é optar por uma cadência regular de ida ao supermercado: segundas-feiras, por exemplo. Vai com tudo planeado, vai de barriga cheia, e mais importante que tudo, não te deixes seduzir pelas letras gordas.
Em tempos escrevi um artigo sobre como caía nas armadilhas dos supermercados e como hoje as evito. Mas posso resumir sumariamente o que faço:
- Cuidado com o sentimento de urgência que a loja exerce sobre ti: pouco importa se a promoção acaba amanhã se não irias comprar isso de qualquer das formas
- Uma coisa são grandes promoções, outra coisa são grandes preços: Só é um grande preço se estavas disposto a pagar mais por aquilo do que aquilo que vale
- Atenção às ilhas às entradas (lojas físicas) e aos grandes banners publicitários (lojas online): ambos estão lá para te induzir à compra, não necessariamente para te servir melhor
- Os selos: as coleções podem ser boas, mas se os produtos em causa são produtos que não precisas, traz apenas se for grátis; caso contrário estarás a gastar dinheiro que não irias gastar
- Evita a fome: falei acima. Tu não és tu quando tens fome, não é? Portanto imagina o que és capaz de fazer numa loja cheia de coisas boas, quando a tua vontade é comer tudo o que lá está
O Poupa Pilim pode servir-te bem neste aspeto, até porque tenho uma secção dedicada a folhetos promocionais. Podes aproveitar para ver as antevisões e a minha breve análise a cada folheto, onde procuro de forma simples destacar alguns artigos que são realmente boas oportunidades.
4. Reduz a fatura do combustível
Como já deu para perceber, sou obcecado por este tema. O meu método é uma combinação de condução eficiente e planeamento.
O melhor mesmo é analisares seis técnicas que já desvendei no blogue (por esta hora já deu para perceber que fiz o TPC antes de fazer este artigo), mas se quiseres um resumo rápido, aqui vai:
- Evita fazer viagens demasiado curtas: se o fizeres, só vais fazer condução com o motor frio, o que se traduzirá em gastos de combustível elevados para o benefício
- Antecipa obstáculos: parar de acelerar antecipadamente poupa travões e combustível
- Cuidado com o timing para abastecer: ver se o combustível sobe ou desce na semana que vem, ver se tens descontos, ver se compensa colocar em bombas de combustível de marca ou não, etc.
- Verificar a pressão dos pneus: pode facilmente reduzir o consumo de combustível até 20%. Usa os valores sugeridos pela marca, ou em alternativa valores ligeiramente acima (se o piso for seguro)
- Portagens vs estrada nacional: compensa ires pela autoestrada ou pela estrada nacional? Depende da altura do dia, da qualidade do piso, do valor das portagens, e mais importante, se o tempo que vais poupar pode ser investido noutras coisas que realmente importam. Coloca tudo em cima da mesa e vê o que compensa
5. Ataca as faturas lá de casa (energia e telecomunicações)
Estas são as despesas que parecem “fixas”, mas não são.
Renegociar é a palavra de ordem. Pelo menos uma vez por ano, uso os simuladores da ERSE (eletricidade) e da ANACOM (telecomunicações) para ver se o meu contrato ainda é o mais vantajoso. Já poupei centenas de euros só com um telefonema.
O que mais gosto é das chamadas das empresas de telecomunicações. Digo sempre “calha bem que me ligou, porque estava mesmo para acabar com o contrato atual, até porque vi uma proposta mais vantajosa de um concorrente”. Se tomares as rédeas da chamada, és tu quem defines as regras do novo contrato e não o contrário.
Não deixes que os comerciais te impinjam produtos que não precisas para pagares o mesmo. Se aceitares vais ficar com coisas que não precisas, portanto não tiveste vantagem nenhuma.
E nunca aceites a primeira proposta. Há sempre uma segunda proposta, mesmo quando te dizem que não há. Se necessário, deixa a chamada ficar por aí, e dentro de uma ou duas semanas voltam ao contacto. Nenhum comercial vai deixar cair o cliente por causa de 3 ou 4€ por mês, mas para ti são 48€ por ano.
As regras finais: otimizar o resto do ecossistema
6. Foge das comissões bancárias
Hoje em dia não faz absolutamente sentido nenhum pagar comissões bancárias. Existem bancos a cobrar 6€ por mês, ou seja 72€ por ano. 72€! Para nada, por algo que outros fazem por 0€! Se pagas comissões troca de banco imediatamente, existem várias soluções de bancos online onde a segurança dos teus depósitos está igualmente garantida.
Eu posso dar sugestões, mas terás de confirmar quando estiveres a ler porque estas coisas mudam rapidamente: moey! e ActivoBank são dois bancos que recomendo por experiência própria, mas também existe o OpenBank, N26, Bankinter e Revolut. Mais uma vez reforço que deves analisar como está o mercado no momento em que estás a ler isto.
7. Compra tecnologia e eletrodomésticos à vontade, mas compara primeiro
Nunca compres no primeiro sítio que vez. Utiliza comparadores online como o KuantoKusta ou o Tropical Price (para a Amazon). Vai aos sites dos principais retalhistas e compara preços e condições. Muitas vezes podes poupar literalmente centenas de euros apenas por ver preços do mesmo produto em vários lugares.
Se costumas esperar pela Black Friday para o fazer, tudo bem, mas toma atenção ao desconto. Como falei em cima para o caso dos supermercados, uma coisa são grandes promoções, outra coisa são grandes preços. Será que esse preço é mesmo o mais baixo. O ideal é monitorizar.
De qualquer forma, se te dás ao luxo de poder esperar, eu faço a questão: precisas mesmo ou é algo que queres? Se é algo que queres, usa sempre a regra das 72h: nunca compras nada por impulso, vai tudo para uma lista de espera de pelo menos 3 dias. Se ao fim de 3 dias ainda queres isso, compra. Muita coisa que vai para a lista nunca será comprada.
8. O lazer não tem de ser caro
Momentos em lazer não tem obrigatoriamente de envolver custos. Muitas vezes os melhores tempos livres são passados do outro lado dessa parede.
Já pensaste em fazer uma lista de tudo aquilo que gostas? Faz, e no fim divide em dois: as que envolvem custos, e as que não envolvem. Aposto que ainda não fizeste tudo o que podias fazer do lado com zero custos.
9. Investe na tua educação financeira
Deixei o melhor para o fim. Aumentar a tua literacia financeira irá criar uma estrutura de pensamento sólida sobre o dinheiro. As poupanças vão começar a surgir de forma muito mais natural, sem ter de andar a seguir checklists, e muito provavelmente vais procurar até outras fontes de rendimento com mais astúcia.
Este investimento pode ser feito de muitas formas. Podes ouvir podcasts de pessoas ligadas às finanças pessoais, ler livros que tenham muito boas críticas e que tenham sobrevivido ao teste do tempo (como o “Pai Rico, Pai Pobre”), começar a questionar os porquês ao teu contabilista, etc. Alimenta a tua curiosidade sobre o tema, investiga, questiona, aprende e começa de novo.
Eu quanto mais sei, mais sinto que tenho que aprender. E adoro esse sentimento, dá um propósito à missão. Aprendo imenso a escrever estas linhas, porque obrigam-me a investigar para ver se é mesmo assim como estou a pensar, e muitas vezes acabo por atualizar a minha sabedoria sobre o tema.
E é também por isso que não me canso de pedir que partilhes nos comentários tudo o que sabes, e se concordas ou não com estas dicas. Eu não quero que isto seja uma conversa unidirecional, existe tanto para aprender e tu tens uma oportunidade soberana para ensinar.
Este artigo foi escrito originalmente a 02/03/2022 e reescrito em 2026, com o propósito de remover conteúdo que não sobreviveu ao teste do tempo. Trata-se de um esforço para garantir que o artigo possa ser útil hoje, para o mês que vem, e para daqui a 10 anos. Agradeço toda e qualquer contribuição na caixa de comentários e estou sempre disposto a torná-lo cada vez mais completo. Este conteúdo também é teu.




