Como muitos de vocês, quando o orçamento começou a apertar cá em casa comecei a olhar mais para as promoções. Numa fase inicial, achava que estava a fazer uma grande coisa, afinal de contas para quê comprar um produto pelo preço original quando o posso comprar em desconto?
Porém, as coisas não são assim tão triviais. Lembra-te: não há almoços grátis. Se os supermercados fazem promoções, fazem-no com o propósito de atrair o comprador para a venda. É lucrativo no longo prazo, porque a promoção dá-nos a sensação de urgência (compra agora ou vais pagar mais), e muitas vezes acabamos por comprar a mais ou comprar o que não precisamos, subvertendo aquela que seria a real vantagem de comprar em desconto.
Vale a pena reter uma coisa antes de continuar: se uma promoção não desse mais dinheiro à loja do que não a fazer, ela não existiria. Isto não é acusação nenhuma, é só o modelo de negócio. Mas convém tê-lo presente enquanto se lê o resto.
O sentimento de urgência
Para mim, este é o principal ponto onde deves ter cuidado. Se uma promoção indica um sentimento de urgência demasiado elevado (tem de ser HOJE, tem de gastar AMANHÃ, etc), tens de ter muito cuidado. Se fores HOJE tirar partido daquela promoção, será que não tens de comprar coisas que não irias comprar só para ativar a promoção? Será que não tens de fazer uma viagem extra, gastando esse dinheiro em combustível?
O que te recomendo é que invertas sempre o raciocínio:
> Se um produto custa 5€ e custava 10€, tu não poupaste 5€: tu gastaste 5€.
Isto é ainda mais relevante se não o planeavas comprar de todo. São 5€ que deixaste de ter mas que terias se ele não estivesse em promoção.
Demorei a perceber porque é que esta inversão é tão difícil de fazer na loja, e a explicação é mais simples do que parece. O preço riscado não está ali para te informar. Está ali para te dar um ponto de comparação. A partir do momento em que vês “10€” cortado, o teu cérebro deixa de perguntar “isto vale 5€?” e passa a perguntar “isto vale menos do que 10€?”. E a resposta a essa segunda pergunta é quase sempre sim, porque a pergunta foi feita para ter essa resposta.
É por isso que o desconto funciona mesmo quando sabemos que é um truque. Não estamos a ser enganados sobre o preço, estamos a ser levados a comparar com a coisa errada.
Grandes percentagens de desconto =/= Grandes preços
Não te iludas com os 60% de desconto no detergente Skip. Olha, isso sim, para o preço. Tenho reparado que em muitas pequenas superfícies, produtos como o Skip líquido encontram-se ao mesmo preço, ou até mais baixo, em relação a superfícies como o Continente e o Pingo Doce, e no entanto nestas o produto aparece com 60% de desconto.
Algo que gosto de fazer é consultar faturas antigas, no meu caso ajuda o facto de fazer compras online, pois posso sempre ir ao email. Se não as tens, não tem mal. O exercício que te recomendo fazer é olhar para o preço de todos os produtos da mesma gama e fazer uma ponderação lógica: vale a pena comprar o detergente A+ por 9,99€ sem desconto ou o Skip por 11,99€ com 60% de desconto (assumindo que ambos têm a mesma quantidade de detergente)?
Olha sempre para o preço. Sempre. É esse que te vai pesar na carteira, não aquele número gordo com o símbolo da percentagem à frente.
E se quiseres levar isto a sério, olha para o preço por quilo ou por litro, que é a única forma de comparar embalagens de tamanhos diferentes. Está sempre lá, em letra pequena, por baixo do número grande. A loja não to esconde, apenas não to facilita.
As famigeradas “ilhas” à entrada da loja, ou os banners online
Como disse atrás, isto já não é um problema para mim porque raramente vou às lojas físicas.
Hmm, tens a certeza Micael? És assim tão esperto para fintar as ilhas às entradas das lojas, mas clicas nas promoções em destaque no site? Pois…
Esta voz que falou sabe-se lá de onde tem toda a razão. Tem cuidado com as ilhas à entrada, mas também tem cuidado com os banners publicitários quando fazes compras online. Ambos servem o mesmo propósito: promover. E promover é diferente de te servir. Não sejas servido por nenhum dos dois.
Tudo o que está nas ilhas (e também nos banners online) também está na secção correta da loja. Não compres nas ilhas, vai à secção e compara os preços com outros produtos similares. Não faz sentido ficares limitado a uma opção quando podes fazer uma escolha ponderada olhando para várias.
E sim, isso inclui os anúncios que vês neste site. Eles existem para permitir que eu possa continuar este projeto, mas eu também quero que eles te sirvam de alguma forma, e não se sirvam de ti.
Os selos
Aqui vou ser rápido: precisas de gastar mais 20€ nas compras para completares a caderneta de selos? Tudo bem, mas antes de o fazer faz três questões a ti próprio:
– Quanto custa aquilo que vais ganhar com os selos? – Precisas mesmo do produto que vais ganhar nos selos, ou é algo que nem tinhas planeado comprar antes dos selos aparecerem? – Tens de gastar esses 20€ agora ou ainda tens tempo para completar a caderneta?
A não ser que: 1) custe mais de 20€, 2) ias comprar aquilo de qualquer das formas, e 3) tens de gastar agora, não faz sentido completares a caderneta. E mesmo neste caso, pondera bem como vais gastar os 20€. Compra produtos que sabes que vais precisar mais cedo ou mais tarde, senão corres o risco de minimizar a vantagem de ganhar aquele produto.
Ainda sobre selos: nem tudo o que parece valer a pena, vale. Eu consegui comprar 10 copos tipo vaso há uns anos atrás, ideais para beber vinho. Não fiz qualquer compra desnecessária para ter as cadernetas completas, por isso pareceu-me um ótimo negócio. Acontece que raramente bebo vinho, e não tinha muito espaço para guardar os copos. Resultado: tornaram-se num fardo cá em casa, anos na dispensa, sem sair da caixa. Uma oferta aparentemente inofensiva (até mesmo interessante) acabou por se tornar num problema. (nota: podia tê-los vendido, eu sei, mas o meu cérebro fez questão de me dizer na altura “não vendas que ainda vais precisar deles”)
Esta história ensinou-me uma coisa que ainda hoje uso: uma coisa grátis não é gratuita. Ocupa espaço, ocupa atenção de cada vez que abres o armário e a vês ali, e ocupa a culpa de não lhe dares uso. O preço foi zero, mas o custo durou anos. Sempre que hoje me oferecem alguma coisa que não pedi, é nos copos que penso.
Evita a fome. A sério
Já li isto não sei quantas vezes, e inicialmente achava ridículo. Mas admitamos: quando temos fome fazemos coisas estúpidas, ou, vá, irracionais. E se tens fome num supermercado, essa irracionalidade tem um preço atrelado. Aqueles croissants quentinhos a sair na pastelaria, aquele pacotão de Ruffles que já não comes desde mil novecentos e carqueja, aqueles Filipinos que devoravas do início ao fim quando eras mais novo…tudo isso vai ter maiores probabilidades de ir parar ao teu carrinho se tiveres fome.
Comprarias essas coisas se tivesses uma lista e se tivesses bem resolvido com o teu estômago? Claro que não.
Por isso mesmo, acho que ir às compras imediatamente a seguir ao almoço é uma excelente ideia: nessa altura até olhas de lado para os doces porque estás satisfeito.
Este problema também se aplica na loja online, afinal de contas meter os Filipinos no carrinho está só a distância de um clique, mesmo que saibas que não os irás ter já.
São 4€ aqui, 3€ acolá, que no fim podem traduzir-se em dezenas de euros só porque estavas com a larica. Não faz sentido nenhum abdicar desse dinheiro por causa de uma necessidade fisiológica temporária, sobretudo por produtos de qualidade duvidosa do ponto de vista nutritivo.
A fome é só o exemplo mais óbvio. Cansaço, pressa e chatice fazem o mesmo, e sobre essa mecânica escrevi noutro artigo, porque não é só no supermercado que acontece.
Então e quando é que uma promoção é mesmo boa?
Estive este artigo todo a dizer mal das promoções, o que não é justo, porque às vezes são mesmo um bom negócio. O problema nunca foi a promoção, foi eu comprar por causa dela.
Quatro condições que uso, e se as quatro se verificarem compro sem pensar duas vezes:
– Ias comprar aquilo de qualquer maneira, mais cedo ou mais tarde. Não “podia dar jeito”, mas mesmo “ia comprar”.
– O preço final bate a tua alternativa habitual, comparado ao quilo ou ao litro. Não a percentagem: o preço.
– Não se estraga antes de o consumires, e tens onde o guardar. Doze iogurtes a metade do preço com validade para quatro dias são seis iogurtes a metade do preço e seis no lixo.
– Não tens de comprar mais nada para a ativar. No momento em que tens de gastar 20€ para poupar 5€, a promoção deixou de ser sobre o produto.
Repara que nenhuma destas condições tem a ver com o tamanho do desconto. Uma promoção de 15% que cumpre as quatro vale mais do que uma de 70% que falha uma.
Um modelo mental que podes aproveitar
Como informático, adoro sistemas. E o meu sistema aqui passou a ser este: não penso em promoções, penso em decisões. Não penso em trazer aquele produto porque tem 50% de desconto, penso em trazer aquele produto porque preciso dele, quer esteja com 50%, 20% ou 0% de promoção.
Há uma razão para eu preferir um sistema a confiar no meu julgamento no momento, e é uma razão que me convenceu de vez. A loja faz esta experiência milhares de vezes por dia, com milhões de pessoas, e ajusta o que resulta. Tu fazes uma vez por semana, ao fim de um dia de trabalho, com um miúdo a dar-te cabo do juízo. É uma luta desigual, estás a jogar sozinho contra uma recolha massiva de dados que lhes permite maximizar os lucros, perdendo o menor número de clientes possível.
É isso que um sistema resolve. Não te torna mais esperto dentro da loja, tira-te a necessidade de seres esperto lá dentro. As decisões já foram tomadas em casa, com calma, e o que resta na loja é executá-las.
Registo todas as minhas despesas, o que me permitiu perceber que isto estava mesmo a funcionar em vez de só me parecer que sim. Uso a aplicação Wallet, mas a ferramenta é o menos importante e daqui a dez anos se calhar já nem existe. O que interessa é ter algum sítio onde os números ficam registados, porque sem isso qualquer sistema é só uma boa intenção.
Se quiseres aplicar este e outros sistemas ao supermercado, tenho um guia completo com as 10 regras que sigo religiosamente e que basicamente já fazem parte da minha identidade, e o mesmo raciocínio aplicado ao orçamento inteiro está nas 9 regras que sigo todos os meses. Para a altura do ano em que isto fica dez vezes mais intenso, escrevi sobre a Black Friday, onde conto como um monitor de 300€ passou a 380€ para depois “baixar” para 290€. E o que vem aí em cada semana está sempre na secção dos folhetos.
O que me escapou? Se tens mais dicas para evitar erros nas compras, deixa nos comentários. Estou sempre aberto à hipótese de poupar, e quem está a ler também!





