A tua subscrição da Netflix não custa 13€. Custa 2200€.

Aquilo que podes ganhar com coisas que não precisas é muito maior do que o número que te aparece na conta todos os meses. Faz as contas ao teu futuro aqui.

Netflix

13€ é o valor do plano intermédio do Netflix no momento em que escrevo estas linhas. Não parece nada de especial, e ao fim de um ano são 156€. Novamente, nada de estrondoso. Então, de onde vem os 2200€?

A matemática por detrás da invisibilidade

Existem três caminhos que o dinheiro pode tomar: ou é gasto, ou é preservado, ou é investido. Este artigo é sobre o que acontece quando passas do primeiro (gasto) para o último (investido) e o efeito multiplicativo a teu favor que isso tem.

Voltemos ao exemplo da subscrição do Netflix a 13€ por mês. Tal como disse, são 156€ ao fim de um ano e 1560€ ao fim de 10 anos (não é assim tão difícil teres Netflix por 10 anos, lembra-te que está em Portugal desde 2015).

Mas, se decidires pegar nesse dinheiro e investi-lo, podem ser muito mais do que 1560€.

Vamos tomar por referência o S&P (Standard & Poor’s) 500. O S&P 500 é um índice composto pelas 500 maiores empresas cotadas em Wall Street, nos Estados Unidos. É tomado como referência porque já existe há imenso tempo (foi criado a 4 de março de 1957) e porque a maior parte dessas grandes empresas opera em todo o Mundo, tratando-se assim de um índice exposto à realidade global e não de um país em específico.

Recorrendo ao site officialdata.org, podemos constatar que este índice deu um retorno de cerca de 10,57% ao ano (os valores podem ser ligeiramente diferentes no momento em que estiveres a ler). Ou seja, $100 investidos em 1957 seriam $105,407 hoje.

No entanto, se tivermos em conta a inflação (aquele bichinho que come o valor do nosso dinheiro todos os anos), o retorno foi de 6,76% ao ano, ou seja 6,76% ao ano é o juro que tu sentes a mais na carteira, mesmo tendo em conta o facto que tudo vai ficando mais caro com o tempo.

Depois deste palavreado todo, vamos a contas. O que aconteceria se, em vez de gastares 13€ no Netflix todos os meses, os pusesses neste índice a render 6,76% ao ano?

Para tal, usamos a seguinte fórmula:

FV=P×(1+r)n1rFV = P \times \frac{(1 + r)^n – 1}{r}

Onde:

  • P é o depósito mensal (13€).
  • r é a taxa de juro mensal, descrita na fórmula abaixo (dá 0,546% por mês)
1,06761210,00546\sqrt[12]{1,0676} – 1 \approx 0,00546
  • n é o número total de meses (12 meses em 10 anos = 120 meses).

Ao fim de 10 anos, é isto que acontece:

CategoriaValor
Total que saiu do teu bolso1560,00 €
Juros reais acumulados647,33 €
Valor final (já ajustado à inflação)2207,33 €

Portanto, se decidires “só” acabar com Netflix, 1560€ é o que te espera ao final de 10 anos. Contudo, se fores além e decidires investir o dinheiro, em média vais conseguir ganhar mais 650€, ou seja valorizas o teu capital em cerca de 41,4%. Coisa pouca, não?

O efeito bola de neve

O exemplo que dei foi muito pouco sensacionalista, na verdade. É que a maioria das pessoas gasta bem mais do que 13€ por mês em serviços que não precisa.

A beleza dos juros compostos é que os ganhos nos investimentos aumentam de forma exponencial conforme o capital que investes. Ou seja, quanto mais investes, maior o peso dos juros no teu balanço final. E quanto mais tempo investes, maior a probabilidade dos juros ultrapassarem o montante poupado.

Vamos imaginar que, para além de Netflix, também tens Disney Plus, pagas comissões em 2 bancos e tens um serviço cloud subscrito com mais armazenamento do que aquele que precisas. Imaginemos que isto tudo são 50€ por mês.

Utilizando a fórmula acima, teríamos este montante investido ao fim de 10 anos:

CategoriaValor
Total que saiu do teu bolso6000,00 €
Juros reais acumulados2489,74 €
Valor final (já ajustado à inflação)8439,74 €
Como se os 6000€ poupados já não fossem chocantes q.b….

Aqui, o peso dos juros mantém-se nos 41,4% pois estamos a falar do mesmo retorno e mesmo período temporal. No entanto, como o montante investido é muito maior, esses 41% acabam por ser muito mais expressivos.

Se continuas pouco convencido, imagina que poderias fazer isto durante 30 anos:

CategoriaValor
Total que saiu do teu bolso18000 €
Juros reais acumulados41385 €
Valor final (já ajustado à inflação)59385 €
Eu até já tirei as casas decimais, os números já são grandes que cheguem…

Aqui os juros não acrescentaram 41% à tua poupança, mas sim 230%! Se poupasses até à velhice, poderias criar um pé de meia de 18000€ em serviços que não precisas. Mas a mesma pessoa que decidisse investir esse dinheiro todos os meses teria 60000€. Mais do triplo!

Agora podes fazer este exercício para tudo na vida, não só para as subscrições. Serve para a meia de leite fora de casa todos os dias, serve para a mensalidade do carro xpto que tens na garagem na maior parte do tempo, serve para os mimos extra que compras todas as semanas no Continente, serve para tudo.

O investimento é quem te protege da inflação

Como vês nas tabelas acima, raramente os valores poupados chegam a ser minimamente excitantes. 30 anos de 50€/mês em subscrições são 18000€. O que não faltam são pessoas a ganhar isso em menos de um ano. Pior que isso, 18000€ em 2056 valerão muito menos do que 18000€ em 2026.

Assumindo inflação de 3% ao ano, 18000€ em 2056 seriam “só” 4100€ em 2026. Portanto toda a tua poupança mensal fica reduzida a algo que hoje vale 4100€.

E estes números tendem a piorar quanto maior for o espaço temporal. A boa notícia é que o investimento ganha um peso cada vez maior, dando muito mais corpo aos números finais.

Por isso, retém isto: o investimento é a única forma de fazer com que esses 18000€ cresçam mais depressa do que o bichinho da inflação come.

Não é nem nunca foi sobre “não ter Netflix”

O meu objetivo não é que te tornes num eremita. É que percebas que aquilo que estás a pagar é muito mais do que o número que vês a sair da conta todos os meses.

Podes começar já pelos mais fáceis: comissões bancárias (tenho um artigo em que falo delas de forma mais extensa). Se calhar são os 6€ por mês mais fáceis que tens para poupar. Depois disso, podes ver outras vias: baixar o plano de subscrição do Netflix, comprar uns halteres e deixar de pagar ginásio, procurar uma condução mais eficiente para poupar combustível, entre outros. Tudo junto ajuda.

Atenção: o facto do índice S&P 500 ter dado ganhos médios reais de 6,76% ao ano, não significa que irás ter sempre isto. Pode dar menos, mas também pode dar mais. Pode até dar prejuízo no curto prazo, mas também pode dar um lucro gigante como aconteceu nos anos 2010.

O que podes contar é com o longo prazo, onde historicamente este índice bateu praticamente todos os outros, e garantiu que 100 dólares em 1957 se transformassem em mais de 100000 dólares em 2026 mesmo sem acrescentar um único dólar a mais do nosso bolso (ou seja, 99900 dólares são exclusivamente juros). Mesmo ajustando ao poder de compra de hoje (ou seja ajustando à inflação), seriam 13000 dólares. 13x mais só por causa dos juros.


E tu? Que serviços tens neste momento e quanto pagas por eles? Já fizeste as contas a quanto poderias ter dentro de 10 anos caso os cancelasses?

Se não quiseres andar com fórmulas manhosas como a que pus acima, multiplica as tuas subscrições mensais por 170 e vê quanto poderias ter daqui a 10 anos!

Este artigo não é sobre aconselhamento financeiro. Se não te sentes confortável em ter um ETF ou investir na bolsa, não o faças. Sentirmos controlo da nossa vida financeira e sentirmo-nos confortáveis com as nossas decisões é e será sempre mais importante que qualquer número rechonchudo que possas ver nos meus cálculos. Aconselha-te com especialistas devidamente credenciados e sem interesses secundários.

Não tenho autoridade suficiente para te dizer como e onde deves investir, apenas mostrar-te o que poderia acontecer ao teu dinheiro se não te limitasses a deixá-lo parado.


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