Quando escolhes tarifa fixa em vez de indexada, não estás a escolher a opção segura. Estás a comprar um seguro, e alguém do outro lado tem de o vender.
Quem te fixa o preço por um ano está a assumir o risco de o mercado subir e de ficar a perder nesse contrato. Não faz isso de graça: põe no preço uma margem que cubra o risco e que ainda lhe deixe alguma coisa. É exatamente o mesmo mecanismo do prémio de um seguro automóvel, e tem a mesma consequência:
Na média de muitos anos, a tarifa fixa custa mais do que a indexada. É nos anos maus que ela ganha, e é para isso que serve.
Isto não é acusação nenhuma, é a definição de transferir risco. E muda a pergunta que se faz.
Uma correção antes de continuar
Anda por aí escrito, e eu próprio já o li em vários sítios, que a tarifa fixa é a que a ERSE define anualmente. Isso só é verdade para quem está no mercado regulado, servido pelo comercializador de último recurso, que é hoje uma minoria das casas portuguesas.
No mercado liberalizado, onde está quase toda a gente, o preço da energia é definido por cada comercializador, livremente e em concorrência com os outros. O que a ERSE define para todos são as tarifas de acesso às redes, que pagas sejas cliente de quem fores, e a tarifa regulada de quem ficou no mercado regulado.
A distinção não é bicudez de linguagem. Se a fixa fosse decidida pelo regulador, não havia nada a comparar entre empresas. Como não é, há.
Onde é que as ofertas são mesmo diferentes
A tua fatura de eletricidade tem três partes, e só uma delas é que muda de comercializador para comercializador.
A energia. Numa tarifa indexada, esta parte segue o preço grossista do mercado ibérico. Não é o teu comercializador que o decide, é a bolsa, e é igual para todos eles.
As tarifas de acesso às redes. São reguladas pela ERSE e são iguais em todos os comercializadores. Ninguém compete aqui, porque ninguém pode.
A parcela do comercializador. É o que ele acrescenta por te vender aquilo, e vem em euros por megawatt-hora, ou numa mensalidade fixa, ou nas duas coisas.
Repara no que isto quer dizer. Duas ofertas indexadas de duas empresas diferentes têm dois terços exatamente iguais.
Numa oferta indexada, quase tudo é igual em todo o lado. O que muda é a parcela que o comercializador acrescenta. Compara esse número e mais nenhum.
É o mesmo tipo de número que a TEC é nos PPR ou o preço ao quilo é no supermercado: aquele que a loja não facilita, e que resolve a comparação sozinho.
Indexada ao mês ou à hora, que não é a mesma coisa
Há uma diferença entre ofertas indexadas que muda bastante o risco e que costuma passar despercebida.
Umas seguem a média mensal do mercado. Outras seguem o preço hora a hora, e nesse caso o que pagas depende também de quando ligas as coisas: uma máquina de lavar às três da tarde de um dia de sol custa uma fração do que custa às oito da noite.
A segunda é mais barata para quem consegue mudar hábitos e mais cara para quem não consegue. Se em tua casa toda a gente chega às sete e liga tudo ao mesmo tempo, uma indexada horária dá-te o pior de dois mundos: a exposição ao mercado sem a compensação de fugir às horas caras.
Aguentas o mês mau?
Aqui está a pergunta que substitui todas as listas de vantagens e desvantagens.
A tarifa fixa é um seguro contra o preço da eletricidade. A pergunta não é qual sai mais barata em média, é se aguentas um mês mau sem que isso estrague alguma coisa.
Quem tem folga no orçamento e uma conta com algum dinheiro de lado pode encaixar uma fatura que triplica num inverno esquisito, e ao fim de dez anos terá pago menos, porque não pagou o prémio ao longo desse tempo. Quem vive com as contas justas ao cêntimo não pode, e para essa pessoa pagar um pouco mais todos os meses para nunca ter uma surpresa é uma decisão perfeitamente racional, e não vou ser eu a chamar-lhe desperdício.
É a mesma lógica da franquia do seguro do carro: quem não absorve a perda paga caro por euro protegido, de propósito e com razão.
A fixa também não é fixa para sempre
Vale a pena saber até onde vai a proteção que estás a comprar, porque não vai tão longe quanto o nome sugere.
Um contrato de preço fixo costuma sê-lo por doze meses. No fim desse prazo o preço é revisto, e é revisto contra o mercado que existir nessa altura. Ou seja, a tarifa fixa protege-te de um pico dentro do ano. Não te protege de uma subida que se instale e fique.
É uma distinção que a crise de 2022 tornou visível para toda a gente. Quem estava em indexado apanhou com o pico em cheio e quem estava em fixo escapou nesse ano, mas a fatura chegou na renovação seguinte, já com os preços altos incorporados no contrato novo. O seguro cobriu o susto e não cobriu a mudança de patamar, que é a mesma coisa que acontece com quase todos os seguros.
Nos dois anos a seguir a resposta virou outra vez, e quem estava em indexado pagou bastante menos. É esse vaivém que torna a comparação de um ano só inútil como argumento, num sentido ou no outro.
A saída existe, mas chega atrasada
Há um argumento que se usa muito a favor da indexada e que convém arrumar: “se correr mal, mudo”.
Mudas, e o processo é simples. Contactas o comercializador com a oferta que te interessa e é ele que trata de tudo, sem teres de falar com o atual. Demora à volta de cinco dias úteis.
O problema não é a mudança, é o calendário. Só sabes que o mês foi mau depois de ele acabar, e a fatura chega ainda mais tarde. Quando reages, o dano já está feito e há uma boa hipótese de o pico já ter passado, o que significa mudar para fixo exatamente no pior momento para o fazer, que é quando o medo está caro.
E há a fidelização, que existe em algumas ofertas indexadas apesar de a indexada ser vendida como a opção sem amarras. Se houver, o custo de sair está limitado por lei e tem de vir escrito na tua fatura todos os meses, e vale a pena ir lá ver antes de assinar seja o que for.
O que eu faço, que é menos interessante do que parece
À data em que escrevo isto ainda nunca tive tarifário indexado.
Renegoceio o contrato mais ou menos de seis em seis meses, e de todas as vezes que fiz contas o que compensava era a fixa. Pode ser coincidência do período, pode ser a minha aversão a surpresas na fatura, e pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Não tenho dez anos de dados meus para saber.
Digo isto porque a alternativa era escrever este artigo como se soubesse, e não sei. O que está aqui é o mecanismo, que se aguenta sozinho, e o mecanismo diz uma coisa que a minha própria escolha não confirma.
Para o estado atual do mercado, que muda de mês para mês e que eu não tenho como acompanhar melhor do que quem o faz a sério, a secção de eletricidade do Contas-Poupança é onde eu vou. E sobre se estás a pagar o preço certo pelo que já tens, seja qual for o tipo de tarifa, escrevi noutro artigo.
O que isto não decide
Nada disto diz qual das duas vai sair mais barata para ti nos próximos doze meses. Ninguém sabe, e quem disser que sabe está a vender alguma coisa.
O que dá para saber é a forma do problema: a fixa é mais cara em média e mais previsível, a indexada é mais barata em média e mais irregular, e a diferença entre as duas é o preço da tranquilidade. Esse preço é real e cada um decide se lhe vale a pena.
Há também um consumo que ninguém muda por causa do tarifário. O frigorífico anda sempre, o chuveiro tem a temperatura que tem, e a maior parte do que se gasta a aquecer decide-se no aparelho e na casa, não no contrato. Trocar de tarifário mexe no preço de cada kWh. Não mexe no número de kWh, que costuma ser onde está a conta grande.
Já tiveste tarifário indexado? Se sim, o que te fez ficar ou sair?




Não é verdade quando diz: “Nunca consegue prever o valor da próxima fatura com o mínimo de precisão”.
Sou cliente do indexado e tenho calculado o valor da próxima fatura, e o erro tem sido mínimo (pouco cêntimos de diferença…).
Dá é um pouco de trabalho…
Olá Vítor,
Tem razão, com alguns cálculos consegue obter um valor aproximado, mas acaba por não ser tão confortável como ter o valor exato da próxima fatura na aplicação. A “desvantagem” é mais nesse sentido.
Obrigado pelo comentário.