Há uma linha na tua fatura da luz que pagas todos os dias, mesmo que estejas de férias com tudo desligado na ficha. Chama-se potência contratada, e é a única parte da conta que não depende nada do que fazes.
Muita gente paga por uma potência que dava para ligar três fornos ao mesmo tempo, e nunca ligou dois.
Isto não acontece por distração. Acontece porque quase ninguém percebe o que está escrito na fatura, e há números sobre isso.
Só 36 em cada 100 dizem perceber a própria conta
Um estudo da ERSE, feito pela Qmetrics e noticiado pelo Jornal de Negócios em março de 2025, diz que apenas 36,1% das pessoas dizem compreender a sua conta da luz. Em 2020 eram 42,2%, ou seja está pior e não melhor.
O mesmo estudo traz três números que valem tanto como esse:
- Só 23,3% sabem que existem simuladores de comparação de preços. Existem, são oficiais e são gratuitos.
- Cerca de dois terços não distinguem um distribuidor de um comercializador, o que é a raiz de metade da confusão neste mercado.
- O índice de literacia energética está em 45,3 pontos em 100.
Não é um problema de as pessoas gastarem muito. É um problema de não saberem ler o que assinaram. E quem não lê a fatura não paga o seu consumo: paga aquilo que ficou combinado num dia qualquer e nunca mais foi revisto.
Três coisas decidem a tua conta, e só três
Vale a pena arrumar isto, porque a fatura parece complicada e as alavancas são poucas.
A potência contratada, que é quanto podes puxar ao mesmo tempo. Paga-se por dia, sempre.
O tarifário, que é como o preço do kWh varia ao longo do dia: simples, bi-horário ou tri-horário.
O comercializador, que é quem te vende a energia e a quem pagas.
Tudo o resto na fatura, as tarifas de acesso às redes, os impostos e a contribuição audiovisual, é igual para toda a gente e não se negoceia.

As tuas três escolhas aparecem em duas linhas: a potência tem linha própria, e o tarifário e o comercializador decidem o preço da energia. O resto da fatura é o mesmo em qualquer lado.
A potência contratada, que é a mais fácil e a mais esquecida
É a única das três que se paga mesmo com consumo zero, e por isso é a primeira a rever.
A potência contratada paga-se todos os dias, independentemente do que gastas. Baixá-la é a única alteração à fatura que não te obriga a mudar hábito nenhum.
O sinal de que tens a mais é simples: se nunca te vai o disjuntor abaixo, nem quando está tudo a trabalhar ao mesmo tempo, provavelmente tens margem. Uma casa com três pessoas raramente precisa de 10,35 kVA.
E há duas coisas que tornam esta decisão pouco arriscada. A primeira é que se enganares para baixo, o pior que acontece é ires ligar o disjuntor e voltares a subir. A segunda é que o teu contador guarda o histórico do que puxaste, e podes pedir esses dados ao teu comercializador antes de decidir, em vez de adivinhares.
Simples ou bi-horário, e a conta que decide
O bi-horário dá-te um preço mais baixo fora das horas de ponta e um mais alto dentro delas. Não é melhor nem pior: depende de quanto do teu consumo consegues mudar de sítio.
E dá para transformar isso numa pergunta única em vez de uma tabela:
O bi-horário compensa quando o desconto que ganhas no vazio, aplicado à parte do consumo que consegues lá pôr, é maior do que o agravamento que pagas em todo o resto.
Na prática, quem tem máquina de lavar, secador, aquecimento de água ou um carro elétrico consegue mover uma fatia grande do consumo para a noite. Quem tem um consumo espalhado pelo dia, com toda a gente em casa às sete da tarde, muda pouco e paga mais caro nas horas em que já gastava.
O que não faz sentido é escolher bi-horário porque parece mais avançado, que é como muita gente lá vai parar.
Distribuidor e comercializador não são a mesma coisa
Dois terços das pessoas não distinguem os dois, e a confusão tem uma história concreta.
A EDP tinha as duas funções e a ERSE quis que se percebesse a diferença. Daí nasceram a EDP Distribuição e a EDP Comercial, e a primeira mudou entretanto de nome para E-Redes.
O que isto quer dizer na prática: a E-Redes é quem tem os postes, os cabos e o contador, e é a mesma para toda a gente, escolhas quem escolheres. O comercializador é só quem te fatura. A EDP Comercial não é mais nada do que a Gold Energy ou a Iberdrola são, é um comercializador como os outros, e o que os separa é o preço e o atendimento.
Carregas no interruptor e a luz acende, seja qual for o nome na fatura. Nenhum deles tem poder para fazer mais do que isso, e nenhum tem poder para fazer menos.
O seguro de eletrodomésticos que aparece na fatura
Os comercializadores tendem a acrescentar serviços ao contrato, e o mais comum é um seguro de avarias de eletrodomésticos.
Vale a pena olhar para esse com o mesmo raciocínio de qualquer outro seguro. Estás a pagar todos os meses para transferir um risco, e a pergunta é se o risco te arruinaria. Uma máquina de lavar avariada é chata e é cara; não é ruinosa. Um seguro que se paga todos os meses para cobrir uma coisa que se aguenta do próprio bolso costuma custar mais, ao longo dos anos, do que as reparações que evita. É o mesmo mecanismo da franquia baixa no seguro do carro, e vale a mesma ressalva: para quem não consegue absorver uma reparação inesperada, pagar por essa tranquilidade é uma decisão perfeitamente racional.
Onde comparar, de graça
Antes de qualquer outra coisa: a ERSE tem um simulador e comparador de ofertas comerciais que é público, gratuito e não vende nada. É a ferramenta que só 23,3% das pessoas sabem que existe.
Se a tua dúvida for entre tarifa fixa e indexada, essa é uma decisão à parte e tem artigo próprio: resumindo muito, a fixa é um seguro contra o preço e paga-se um prémio por ele.
A parceria com a Mais no Bolso
Aqui é onde eu ganho alguma coisa, e digo-o antes de dizer o resto.
A Mais no Bolso analisa a tua fatura e diz-te se estás a pagar mais do que precisas, comparando as ofertas do mercado. O serviço é gratuito e sem compromisso para ti, e o Poupa Pilim tem uma página de parceria onde podes fazer a simulação. Se usares esse link, eu recebo, e é por isso que ele está aqui.
O que a distingue do simulador da ERSE é haver uma pessoa a olhar para a tua fatura em vez de tu teres de a interpretar sozinho, o que, dado que 64% das pessoas dizem não a compreender, resolve o problema no sítio onde ele existe. Fazem o mesmo para gás e telecomunicações.
O que eu não posso garantir é o tamanho da poupança. A Mais no Bolso fala em até 300€ por ano e em famílias que pagam 15% a 25% a mais do que precisariam. São números deles, baseados nas faturas que veem, e não são números que eu tenha maneira de verificar. Aceita-os como estimativa comercial, que é o que são, e usa a tua própria fatura como prova.
Quanto é que isto vale, a sério
Vamos supor uma otimização que corte 40€ por mês, que é o topo do que costuma aparecer nestas análises. São 480€ por ano.
Se esses 480€ ficarem parados na conta, ao fim de dez anos são 4 800€.
Se forem investidos, ao mesmo retorno real que uso nas contas da Netflix, 6,76% ao ano já descontada a inflação, dão 6 795€. Metade disso, 20€ por mês, dá 3 397€.
Repara que o passo dos 4 800€ para os 6 795€ pressupõe que o dinheiro é mesmo investido em vez de se diluir no orçamento, que é a parte frágil de qualquer promessa destas. Sem esse passo ficam os 4 800€, que já não são coisa pouca por uma tarde a rever contratos.
O que isto não resolve
Mudar de tarifário e ajustar a potência mexe no preço de cada kWh. Não mexe no número de kWh, e é aí que costuma estar a conta grande.
A maior parte do que se gasta em casa decide-se no aparelho e na casa: o ar condicionado e a temperatura a que o pões, a água quente, o isolamento. Um contrato ótimo numa casa que perde calor por todo o lado continua a ser uma fatura alta, só que ligeiramente menos alta.
E há um pormenor que costuma servir de consolação e não deve. Portugal tem preços de eletricidade abaixo da média da União Europeia, e as renováveis já abastecem 71% do consumo. Nada disso aparece na tua fatura se o contrato que assinaste há seis anos continuar lá.
Quando foi a última vez que olhaste para a potência contratada da tua casa, e sabes de cor qual é?




