Não sei como é aí em casa, mas aqui há uma luta constante com o comando do AC. A minha mulher acredita que, para a casa ficar quente no inverno, tem de subir a temperatura para uns 24 ou 25 graus. No verão é o inverso: mais de 22 é calor.
O que está por trás desta discussão, e que não é evidente, é uma ideia errada sobre o que aquele número faz.
O comando não é um acelerador. É um destino. Pôr 30 graus para aquecer mais depressa é como escrever uma morada mais longe no GPS para chegar mais cedo a casa. O número não diz ao aparelho com que força trabalhar. Diz-lhe onde parar.
Se puseres o modo quente a 20 graus, o ar continua a sair quente. Aos 30 também sai quente, com uma diferença: aos 20 o aparelho desliga quando lá chegar, e aos 30 nunca desliga, porque a tua casa nunca vai lá.
Antes dos graus, um número que vale mais do que todos eles
Há uma coisa que quase nenhum artigo sobre ar condicionado diz, e que vale mais do que todos os truques juntos.
Um aquecedor elétrico e um ar condicionado ligam à mesma tomada e consomem a mesma eletricidade. Pelo mesmo dinheiro, o ar condicionado dá três a quatro vezes mais calor.
Não é magia nem é publicidade. Um aquecedor elétrico transforma eletricidade em calor, e no melhor dos casos dá 1 kWh de calor por 1 kWh consumido. Um ar condicionado não fabrica calor: vai buscá-lo lá fora e trá-lo para dentro, e por isso pode entregar 3 ou 4 kWh de calor por cada 1 kWh que gasta. O número que mede isso chama-se SCOP, e vem escrito na ficha do aparelho.
O custo de aquecer é o preço da eletricidade a dividir pelo SCOP. Um aquecedor elétrico tem SCOP 1, por definição.
Põe o aquecedor elétrico a 100 e faz a divisão de cabeça. Um aparelho com SCOP 3 custa 33 pelo mesmo calor. Com SCOP 4, custa 25. Com SCOP 5, custa 20.
Repara no que acontece à medida que se sobe: de 3 para 4 poupam-se 8 pontos, de 4 para 5 poupam-se 5, e de 5 para 6 poupar-se-iam 3. Cada ponto de eficiência vale menos do que o anterior. Vale a pena pagar mais por um aparelho mais eficiente, e vale cada vez menos, o que é útil saber quando a diferença de preço entre dois modelos é grande.
E o SCOP não tem preços lá dentro, por isso esta conta não envelhece quando a tarifa mudar. Muda o que se põe em cima da divisão, não a divisão.
Só falta saber onde é que o número está, e aí há uma armadilha, porque o que salta à vista no rótulo não é ele:

Os valores desenhados são um exemplo. O que interessa é onde ficam, e que são dois, um para cada estação.
A letra do rótulo é um resumo. O número que interessa é o SCOP, porque é esse que se divide pelo preço.
Porque é que baixar um grau poupa, e quanto
Agora os graus, com a razão certa por trás.
A tua casa perde calor para a rua o tempo todo, e perde-o em proporção à diferença entre a temperatura lá dentro e a temperatura lá fora. O aparelho existe para repor o que se perde. Portanto o que ele gasta não depende do número no comando: depende da distância entre esse número e a rua.
Daí sai uma régua que dá para fazer de cabeça:
Baixar um grau no inverno corta a conta em 1 a dividir pela diferença entre a temperatura de dentro e a de fora.
Está 10 graus na rua e queres 20 em casa? A diferença são 10, e baixar para 19 corta uns 10%. Está 5 graus na rua? A diferença são 15, e o mesmo grau corta uns 7%.
O que isto tem de contraintuitivo é que o grau vale mais, em percentagem, nos dias amenos, que são precisamente os dias em que ninguém pensa em poupar. Nos dias de gelo o aparelho está a lutar contra uma diferença tão grande que um grau já não muda muito.
A conta é conservadora, ainda por cima. Com o interior mais próximo do exterior, o aparelho também trabalha com menos diferença entre as duas serpentinas e fica mais eficiente, o que se soma à poupança. Não vou tentar quantificar essa parte, porque depende do modelo e da rua.
As referências que se usam por cá andam nos 19 graus no inverno e 24 no verão. Não têm nada de sagrado, e o que interessa é o raciocínio: quanto mais perto da rua puseres o número, menos há para repor. Sobre o preço de cada kWh que isto consome, e sobre porque é que ele muda de hora a hora, escrevi noutro sítio a propósito dos tarifários indexados.
O modo automático, e o modo noite
Com isto arrumado, o resto do comando fica simples.
O modo automático é o que faz o aparelho parar quando chega ao destino, em vez de andar a soprar por hábito. É a diferença entre um aparelho que trabalha por objetivos e um que trabalha por horas.
O modo noite serve para as casas que arrefecem depressa quando se desliga tudo, que são quase todas as casas antigas em Portugal. Em vez de desligar, o aparelho passa à velocidade mínima e mantém-se lá. Muitas unidades baixam ainda 2 graus de forma suave ao longo da noite, o que é sensato, porque para dormir não se quer a casa quente.
E isto vale igual no carro. O comando do carro também é um destino, e 30 graus lá dentro não aquecem mais depressa, só garantem que o sistema nunca desliga.
O filtro sujo custa mais do que parece
Convém limpar os filtros, e não é só por causa do ar que se respira.
Um filtro entupido obriga o aparelho a mover a mesma quantidade de ar através de menos espaço, e um aparelho a fazer força é um aparelho a gastar mais para entregar o mesmo. É o mesmo consumo a produzir menos conforto.
Há ainda o efeito na humidade, que em Portugal não é detalhe nenhum. Já tive uma situação em que o filtro sujo fazia a humidade da casa subir quando devia estar a descer, numa altura do inverno em que já andava acima dos 70%.
Muitas unidades trazem um modo de auto-limpeza, que seca a unidade no fim de a usar e evita bolor e maus cheiros. Vale a pena ver se o teu comando o tem, porque costuma estar escondido.
Não estará o aparelho a compensar a casa?
Esta é a pergunta grande, e a resposta honesta é que muitas vezes sim.
Numa casa antiga o problema está nas paredes e no vidro, e isso não se resolve com o comando. Mas há duas coisas mais baratas que mexem muito.
As janelas e as portas. É por aí que entra ar, e cada corrente é calor a fugir sem passar pela parede. A fita de calafetagem custa pouco e resolve grande parte.
Uma ressalva importante, que o conselho de “isolar tudo” costuma esquecer: uma casa portuguesa antiga sem ventilação passa a ter condensação e bolor. O ar de dentro carrega a humidade de tomar banho, cozinhar e respirar, e se não tiver por onde sair vai condensar na parede mais fria da casa. Selar as frestas e continuar a arejar todos os dias, ou ter ventilação a sério, são a mesma medida em duas partes. Feita só a primeira, troca-se uma conta de eletricidade por uma parede com manchas.
O sol. Aquele solzinho de inverno pode acrescentar vários graus a uma divisão virada a sul, e é calor que já pagaste. Persianas abertas de dia no inverno, fechadas de dia no verão. É a coisa mais barata deste artigo inteiro, porque custa exatamente zero.
Se ainda não tens um e estás a pensar comprar
O tamanho. Grande de mais é dinheiro deitado fora, pequeno de mais nunca chega ao destino. Por alto:
| Área da divisão | Potência |
|---|---|
| até 15 m² | ~9 000 BTU |
| 15 a 25 m² | ~12 000 BTU |
| 25 a 40 m² | ~18 000 BTU |
Isto é um ponto de partida, não uma conta. Pé-direito alto, muito vidro, orientação a poente e uma casa sem isolamento empurram tudo para cima.
E há aqui uma subtileza que muda a decisão: um aparelho sobredimensionado é muito pior se não for inverter. Um aparelho antigo só sabe estar ligado ou desligado, e se for grande de mais liga e desliga a toda a hora, o que o desgasta e deixa a casa húmida, porque nunca corre tempo suficiente para secar o ar. Um inverter abranda em vez de desligar, e por isso perdoa melhor um erro de tamanho.
A tecnologia inverter. É por causa disto que ela importa. O inverter regula a velocidade do compressor em vez de o desligar, e é isso que lhe permite manter a temperatura sem os arranques que gastam mais e fazem barulho.
O SCOP e o SEER. As classes energéticas saem destes dois números, com limiares fixados em regulamento europeu que não vou aqui copiar de segunda mão porque não os consegui ler na fonte. O que interessa está mais acima, e é que a letra é um resumo e os números estão sempre ao lado dela.
O modo dry. Desumidifica, e com isso podes vender o desumidificador na Vinted. Com duas ressalvas que ninguém diz: ao desumidificar também arrefece a divisão, o que no inverno é o contrário do que queres, e é menos eficiente por litro de água retirada do que um desumidificador a sério, que aproveita o próprio calor. E não ligues o modo quente logo a seguir ao dry, porque a água fica acumulada na serpentina e volta para dentro de casa.
O que fica por resolver
Tudo o que está aqui otimiza a máquina. Mede-se, faz-se de cabeça, e funciona.
O que não sei resolver é o degrau anterior. A máquina está a compensar uma casa, e a casa é que decide quanto ela tem de trabalhar. Trocar as janelas ou isolar uma parede custa milhares de euros e devolve uma poupança que depende do clima, da orientação, do preço da energia daqui a dez anos e de quanto tempo se tenciona lá ficar. São variáveis a mais para uma régua.



