A compra que não precisavas – mas que fizeste na mesma

Aposto que não tiveste só uma compra estúpida, mas sim várias. Vou-te ajudar a desmistificar os erros comportamentais por detrás disso para que as evites no futuro.

Erros Financeiros

Todos nós já fizemos compras muito estúpidas, que nos arrependemos imediatamente. Mas nem todas as compras por impulso são iguais.

Eu separaria em duas: coisas que gostávamos de ter, mas não refletimos o suficiente sobre o se valem mesmo a pena, e coisas que nem sequer pensávamos ter, mas compramos na mesma. Este artigo aborda ambas.

A maioria das compras irrefletidas acontece porque o teu inconsciente está a tentar suprimir uma necessidade qualquer. Aborrecimento, melancolia, tristeza, solidão, sei lá, tudo o que tiver no dicionário com conotação negativa pode perfeitamente entrar aqui.

Para todos esses estados de espírito, o nosso cérebro fica a desesperar por algo: dopamina. A dopamina é o neurotransmissor da procura e não da satisfação. Ou seja, ele vai-te pedir algo que ainda não aconteceu e que ainda não tens, garantindo-te que isso vai resolver os teus problemas.

Agora que já sabes que estás apenas a ser enganado por ti mesmo, é a altura de pensar em técnicas ou sistemas para minimizar ao máximo o impacto negativo das compras por impulso.

Combate a “fome emocional”

Já percebemos que a compra é uma tentativa de compensar um problema emocional. Mas como evitar que volte a acontecer no futuro?

Pensa assim: essa compra nunca será mais do que um “penso rápido” para um problema meramente psicológico. Ela não te vai resolver nenhum problema fundamental. É como tomar comprimidos para apagar a dor: o problema continua lá.

Portanto, sempre que estiveres numa situação destas, pensa para ti “que problema é esta compra vai resolver? que garantia tenho que dentro de 24 horas, ou 48 horas, o meu problema continua sanado?”. Esta capacidade de criares as questões para ti mesmo vai criar uma fricção no momento da compra, porque não vais conseguir justificá-la.

Se deixares-te levar pelo processo de escolher produto > meter no carrinho > pagar, sem refletir muito sobre isso, nunca irás resolver nada, e voltarás ao mesmo mais tarde.

A angústia da escassez

Muita gente vive com o salário mínimo nacional, ou perto disso. Quando assim é, temos de estar sistematicamente a fazer contas, o que é angustiante.

E é precisamente por causa deste tipo de situações que muitas pessoas acabam por gastar dinheiro mal gasto. Essa angústia de não se poder comprar o que se quer é quebrada um dia, porque “é só esta vez” e “também mereço”. E tens razão, mereces menos ansiedade, mas essa compra não te ajudou em nada – pelo contrário.

Adaptação hedónica

Lamento o jargão, mas não conheço um termo técnico melhor. A adaptação hedónica é a tendência humana de voltar a um estado de espírito anterior, independentemente de teres resolvido um problema fundamental na tua vida ou não.

Ou seja, até podes fazer uma compra que te vai resolver um problema, o que temporiamente se reflete num maior estado de satisfação e felicidade, mas rapidamente voltas ao ponto de partida.

Um bom exemplo é um carro novo. O efeito “wow” é poderoso, passamos o dia a pensar nele, até sonhamos com ele. Mas ao fim de algum tempo é tão excitante de conduzir como o nosso carro antigo, porque a novidade esfumou-se.

A minha referência à adaptação hedónica é apenas para te relembrar o porquê de estares triste ou aborrecido quando se calhar tinhas imensas razões para te sentires de outra forma.

Esta tendência não é curável, ela vai sempre existir, para o bem e para o mal. Também existem situações onde é boa, por exemplo na perda de um ente querido, numa incapacidade após um acidente, num roubo, entre outros. Muitas destas pessoas vão-se abaixo mas depois conseguem voltar a um estado muito parecido ao que estavam antes dos acontecimentos precisamente por causa disso.

O vício do salário

Fala-se de droga, álcool e tabaco, mas o vício do salário é pouco melhor. Existem pessoas que vivem em ansiedade à espera do novo salário, muitas vezes por razões legítimas como estar sem dinheiro para coisas fundamentais, mas muitas outras vezes é apenas para ter algo que as possam ajudar a fugir um pouco da tristeza e aborrecimento.

A melhor forma de combater isto é inverter a forma como gastas os teus primeiros euros do novo salário: em vez de ser em compras, ou pagamentos de contas, começa por pagares a ti mesmo.

Isto é uma forma criativa de atribuires uma conotação positiva ao vencimento: primeiro ele serviu-te, e só depois é que os outros se vão servir dele.

É muito melhor começar o mês com mais 50 ou 100€ na conta poupança. O valor dessa conta poupança torna-se maior, vais ficar feliz por causa disso, e com mais vontade de continuar a fazê-lo crescer.

Isto não é dopamina clássica, é dopamina progressiva. É algo que cresce com o tempo, e que deixa sempre algum resíduo mesmo em momentos menos bons. Dito por outra forma, é algo que ajuda a elevar a tua moral de forma permanente.

Para tal, tens de evitar compras desnecessárias, portanto ficas a ganhar dos dois lados. O dinheiro que outrora era mal gasto, agora serve-te e ajuda-te a atingir a liberdade financeira, ou pelo menos um maior desafogo.

Procura estar “na zona”

Mais um jargão – prometo que é o último. Estar “na zona” (flow, em inglês), é estar num estado em que o tempo parece passar a voar, e estás imerso naquilo que estás a fazer. Pode ser a ler um livro, ver o teu filme favorito, passear com o teu filho, jogar um videojogo, tocar guitarra, etc..

Não sei a origem deste termo, mas fiquei a saber muito mais sobre ele no livro “Flow – A psicologia da felicidade” do Mihaly Csikszentmihalyi (Wook). O flow (ou estar na zona) é quando uma experiência é realmente satisfatória. Nem é aborrecida ou fácil, nem é difícil ou frustrante. Está mesmo no meio – a zona.

Faz uma reflexão: o que é que costumas fazer na tua vida que faz com que o tempo passe a voar? Dormir não conta 🙂 Se já identificaste, pronto: precisas mais disso na tua vida, porque essa condição é que remove todos os estados de espírito negativos que levam às compras injustificadas.

Cuidado com os pagamentos fáceis

Um dos problemas das compras online é que são fáceis de se fazer – demasiado fáceis, até. Se tens PayPal, basta um clique no botão “Pay with PayPal”, se tens MB Way, basta aceitar a compra e meter o código PIN. Num acto mais ou menos irrefletido num par de segundos, ficaste sem o dinheiro.

Em compras físicas existe muito mais fricção, és obrigado a ser mais proativo e mais intencional. E por vezes isso é o suficiente para evitares cometer erros.

Se sentes que isto é um enorme problema para ti, pensa numa forma de criar mais fricção à volta dos pagamentos.

Regra das 72 horas e um propósito

Faz este contrato contigo mesmo: “todas as compras que eu quero fazer têm de resolver um problema fundamental e tem de passar por um período de reflexão de 72 horas”.

Podes fazer isto muito facilmente. Instalas uma aplicação tipo to-do list (Google Tasks por exemplo), e sempre que algo tem vem à cabeça e que queres muito, colocas esse item na lista. Esperas 72 horas (podes por um alerta). Quando o alerta acionar, só precisas de responder a duas coisas: isto vai resolver algum problema na minha vida? Ainda quero isto?

Regista o acontecimento e faz uma retrospetiva

O que correu mal para que eu tenha feito esta compra? O que posso fazer para evitar isto?

É importante determinares a conjuntura que te levou a fazer uma compra que te arrependeste. Só tu sabes em que situação de encontravas, e o que poderias fazer diferente para evitar isso.

Registar é importante, fechas um ciclo na tua cabeça e da próxima vez vais-te lembrar disso com mais facilidade. Se continuares a fazer tudo de forma inconsciente, garantidamente voltas a repetir os mesmos erros.

Termino com uma recomendação: se há uma compra que podes (e deves) fazer nas próximas 72 horas, é o livro Hábitos Atómicos. Nele, o James Clear explica-te como “micro-mudanças” comportamentais te vão ajudar a resolver problemas relacionados com hábitos – nomeadamente o das compras.

É um dos melhores livros que já li até hoje, e que repeti 3x (ainda vou à quarta, há sempre algo a aprender). Links para a Wook, Fnac e Bertrand (nota: não recebo qualquer comissão, só quero que compares o preço e compres onde fica mais barato).

E lembra-te: espera 72 horas antes de o comprar, porque não é algo essencial na tua vida, é algo que queres 🙂


Há tanto mais para dizer sobre erros comportamentais e sobre a psicologia por detrás das compras por impulso. Na verdade, seria muito bom se esse impulso se limitasse às compras, para muitas pessoas aparece mais rapidamente sobre a forma de vontade de comer, entre outras não necessariamente melhores.


Comentar

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top