Descobre os segredos do preço dos combustíveis em Portugal

Sugestoes Simples Poupar Combustivel

Entre o posto mais caro e o mais barato ao pé de tua casa, a diferença anda nos poucos cêntimos por litro. Não é conluio nem falta de concorrência.

É que, de tudo o que pagas por litro, só cerca de 29 cêntimos é que cada posto decide. Hoje, com o litro a pouco mais de 2€, isso é um sétimo do preço. Os outros seis sétimos são rigorosamente iguais para toda a gente, porque são a mesma cotação internacional e o mesmo imposto.

Quando comparas o preço da Galp com o do hipermercado, estás a comparar um sétimo do preço. E, no fim, mostro-te como calculares essa parcela em qualquer posto, num dia qualquer.

As três coisas que estás a pagar

Um litro de gasóleo ou de gasolina é a soma de três coisas de natureza completamente diferente, e a confusão entre elas é a origem de quase toda a conversa errada sobre combustíveis.

O produto. A cotação internacional é o preço diário dos derivados de petróleo nos mercados de futuros, o RBOB para a gasolina e o LGO para o gasóleo. Junta-se-lhe o frete, que é o custo de trazer aquilo até Lisboa, os custos de descarga e armazenagem, as reservas de segurança que a ENSE obriga a manter, e a incorporação obrigatória de biocombustíveis. Ninguém em Portugal controla nenhuma destas parcelas.

O imposto. O ISP, acompanhado da contribuição rodoviária e da taxa de carbono, que a ENSE apresenta somados numa única linha. É fixado por lei.

A margem. O que fica para quem distribui e vende. É a única parcela que varia de posto para posto, e por isso é a única onde há concorrência.

E depois há o IVA, que não é uma quarta parcela: é uma multiplicação aplicada por cima de todas as outras.

O erro que faz esta conta parecer mais simples do que é

O ISP não é uma percentagem. É um número fixo de cêntimos por litro.

Isto parece um detalhe de contabilidade e não é. É a coisa mais importante que há para saber sobre o preço dos combustíveis, e é a razão pela qual quase toda a informação que encontras sobre o assunto envelhece mal (e faço mea culpa, porque quando redigi este artigo pela primeira vez também tinha a informação errada).

Se o imposto é um número fixo de cêntimos, então o peso dele em percentagem move-se ao contrário do preço do petróleo.

Com números a sério: o ISP e as taxas que o acompanham estão hoje em 0,605€ por litro. Com a gasolina a 2,09€, isso é 29% do que pagas. Se o litro descesse para 1,70€, o imposto continuaria a ser exatamente os mesmos 0,605€, mas passaria a ser 36%. Não mudou nada na lei. Mudou o denominador.

É por isso que uma frase do género “o imposto representa um terço do preço” só é verdade no dia em que foi escrita.

O IVA cobra imposto sobre o imposto

O IVA aplica-se a tudo o que está por baixo dele, e isso inclui o ISP.

A consequência é simples e vale a pena guardá-la: cada euro de ISP custa-te 1,23€ na bomba. Não é 1€. O Estado cobra o imposto e depois cobra 23% sobre o imposto que acabou de cobrar. Nos 0,605€ de hoje, são quase 14 cêntimos de IVA cobrados em cima do imposto.

Um litro por dentro

Aqui fica um litro de gasolina como estava no dia em que escrevo isto, com a decomposição da ENSE e o preço afixado numa Galp, a 2,091€.

Componente€/litro% do preço afixado
Cotação e frete0,77137%
Biocombustíveis0,0864%
Reservas, descarga e armazenagem0,0050,2%
ISP, contribuição rodoviária e taxa de carbono0,60529%
Margem de comercialização0,23311%
Subtotal, antes de IVA1,70081%
IVA, 23% sobre esses 1,700€0,39119%
Preço afixado2,091100%

Espera, o IVA não é 23%? Porque é que ali aparece 19%?

São as duas coisas verdadeiras ao mesmo tempo, e é a confusão mais comum que há com o IVA.

A taxa é 23%, e aplica-se mesmo a tudo o que está acima dela na tabela, imposto e margem incluídos: 23% de 1,700€ dão exatamente os 0,391€.

Os 19% aparecem porque a coluna da direita mede cada parcela contra o preço afixado, e o preço afixado já inclui o próprio IVA. Uma parcela nunca pode ser 23% de um total de que ela própria faz parte. A conta passa a ser 23 a dividir por 123, que dá 18,7%.

A taxa é 23% quando se olha de baixo para cima, e 18,7% quando se olha de cima para baixo. É a mesma moeda vista dos dois lados. Daqui sai uma coisa prática que dá jeito em muito mais do que combustíveis: para tirar o IVA de um preço não se multiplica por 0,77, divide-se por 1,23.

Três leituras saltam à vista.

A primeira: entre o ISP e o IVA, quase metade do que pagas é imposto, 47,6% para ser exato. Enches o depósito com 60€ e mandas perto de 29€ para os cofres do Estado.

A segunda: a maior parcela isolada não é o imposto, é o produto. A cotação e o frete sozinhos são 37% do preço, mais do que o ISP. Quando o preço sobe muito depressa, é quase sempre esta linha a mexer-se, não a lei.

A terceira: aqueles 0,233€ de margem, ou 0,287€ contando o IVA que lhes assenta em cima, são o campo de jogo inteiro. É lá dentro que cabem a diferença entre marcas, os cartões de desconto, as campanhas de supermercado e a decisão de atravessar a cidade para poupar quatro cêntimos.

Como calcular a margem de qualquer posto

Esta é a parte que eu não sabia fazer quando escrevi o artigo original, e é a mais útil de todas.

A ENSE publica aquilo a que chama preço de referência: a soma de todas as componentes menos a margem de venda. É, literalmente, quanto custaria o litro se o posto não ganhasse nada.

Portanto a conta é uma subtração:

preço afixado no posto − preço de referência da ENSE = margem daquele posto, IVA incluído

No dia em que escrevo, a referência estava em 1,805€ e a Galp afixava 2,091€. A diferença são 0,287€. É esse o espaço em que os postos competem uns com os outros, e é por isso que a diferença entre o mais barato e o mais caro nunca é dramática: estão todos a disputar os mesmos 29 cêntimos.

Duas cautelas para a conta valer. Tem de ser o mesmo produto, porque a referência da gasolina e a do gasóleo são diferentes. E tem de ser o mesmo dia, porque a referência muda todos os dias.

Vale a pena reparar numa coisa: o IVA que a ENSE mostra no preço de referência, 0,338€, é menor do que o IVA que pagas de facto, 0,391€. A diferença é o IVA que assenta sobre a margem do posto. Quanto mais caro o posto, mais IVA pagas por causa disso.

Então porque é que o preço muda de país para país?

Se a cotação internacional é a mesma para todos e o transporte custa aproximadamente o mesmo, sobra pouca coisa para explicar a diferença. Sobra o imposto, e sobra o IVA que se cobra por cima dele.

É essencialmente por isso que os preços mudam quando se atravessa uma fronteira. Não é o combustível que é diferente, é o país. Quando fui atestar a Espanha para ver se compensava, a diferença que encontrei não vinha de eles terem petróleo melhor.

E porque é que o hipermercado é mais barato?

Pela mesma lógica, ao contrário. Como o produto e o imposto são iguais para toda a gente, um posto só pode ser mais barato apertando aqueles 29 cêntimos.

Um posto tradicional vive daquela margem. Um posto de hipermercado não precisa, porque o combustível ali é isco: leva-te ao parque de estacionamento, e o negócio faz-se lá dentro. Vender gasóleo a ganhar pouco é aceitável para quem ganha noutro sítio.

É a mesma mecânica dos combustíveis aditivados, onde a pergunta interessante nunca é se o aditivo faz alguma coisa, mas se faz o suficiente para pagar a diferença de preço.

E, já agora, é também a razão pela qual poupar na condução ganha sempre a poupar no posto. A margem que consegues caçar são cêntimos por litro, dentro daqueles 29. Os litros que não gastas são litros inteiros, a 2,09€ cada, imposto e tudo. As técnicas que uso mexem nessa parcela, que é sete vezes maior.

Onde ir buscar os números de hoje

Nada disto se mantém parado. A cotação muda todos os dias e o imposto muda quando o Governo quiser.

A decomposição oficial, atualizada, está na página da ENSE, com o detalhe por combustível. É de lá que saem todos os números deste artigo, e é de lá que sai o preço de referência de que precisas para a subtração da margem.

O que não muda, e é o que vale a pena levar daqui, são as três regras de forma: o imposto é em cêntimos e não em percentagem, o IVA cobra-se por cima do imposto, e a margem é a única coisa que compete.

Qual é a diferença, em cêntimos por litro, entre o posto mais barato e o mais caro a cinco minutos de tua casa?


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1 comentários no “Descobre os segredos do preço dos combustíveis em Portugal”

  1. Porquê ultimamente as gasolineiras têm tido os maiores lucros de sempre?
    Porquê nas gasolineiras de marca os preços são idênticos que é aquilo que não acontece no estrangeiro?
    O porquê dos preços estarem mais elevados do que aquilo que é identificado pelo mercado da concorrência? Toda a gente sabe o os porquês, é como as outras energias, somos um País de ricos como os Nórdicos mas com salários de 3º mundo.

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