50 litros a 15 cêntimos mais baratos poupam 7,50€.
Esses 7,50€, com o litro a 2€, compram 3,75 litros de gasóleo. E 3,75 litros, num carro que faz 5 L/100, dão para andar 75 quilómetros.
Está aí a resposta toda, e não precisa de fórmula nenhuma: o dinheiro que poupas, convertido outra vez em combustível, é exatamente a viagem que ele te paga. Se a ida e volta até à gasolineira espanhola der mais de 75 km, gastaste a poupar.
Fui a Bragança ver uns amigos e aproveitei para atestar do outro lado da fronteira. Vim para casa fazer as contas com calma, e o que descobri foi que a pergunta com que toda a gente começa, “compensa ir a Espanha?”, está mal feita.
A regra, dita ao contrário
A mesma conta de cima, escrita de maneira a servir para qualquer dia e qualquer preço:
Os quilómetros que compensa fazer a mais são a autonomia daquele abastecimento, multiplicada pela percentagem de desconto.
50 litros num carro de 5 L/100 dão 1 000 km de autonomia. 15 cêntimos sobre 2€ são 7,5% de desconto. E 7,5% de 1 000 km são 75 km.
Gosto desta versão porque não tem preços lá dentro. Tem uma autonomia e uma percentagem, e essas duas coisas tu sabes sempre, esteja o gasóleo a 1,20€ ou a 2,50€.
Repara no que a regra não pergunta. Não pergunta quanto gasta o teu carro, nem quantos litros leva o depósito. Pergunta só quanto é que andas com aquele abastecimento. Um carro de 5 L/100 com 50 litros e um de 10 L/100 com 100 litros têm a mesma autonomia e exatamente o mesmo limite de quilómetros: o segundo poupa o dobro, mas também gasta o dobro a lá chegar, e as duas coisas cancelam-se.
Hmm, mas Micael, e se eu não encher 50 litros?
Então o limite encolhe na mesma proporção. Com 30 litros, aquele abastecimento dá 600 km de autonomia e o limite cai de 75 km para 45. É por isto que ir a Espanha com o depósito a meio raramente faz sentido: fazes a viagem inteira mas só trazes metade da recompensa.
Seguir os litros
Há uma dúvida que esta conta levanta e que é preciso arrumar. Com quantos litros é que se vai, quantos se põem lá, quantos se gastam a voltar, e com quantos se fica no depósito para andar no dia a dia.
Não é preciso seguir os litros um a um. Todo o combustível que gastares acaba comprado em algum lado, e os litros baratos são só os que couberem no depósito naquele dia. Tudo o que exceder isso compra-se cá, ao preço de cá. Não interessa se gastas os litros espanhóis na viagem de volta ou a levar os miúdos à escola durante a semana: quanto mais depressa os gastares, mais cedo estás outra vez a abastecer em Portugal.
É por isso que a conta tem só duas parcelas. Poupas nos litros que trazes, e pagas os quilómetros a mais ao preço de cá.
E vem daqui uma consequência prática: os litros são o multiplicador. Quanto mais vazio chegares, mais cabe, e mais vale a viagem. É a mesma razão pela qual o depósito a meio estraga o negócio.
A outra metade da conta
Fixada a autonomia, o que sobra para mexer no resultado é a percentagem. E aqui está a parte que se perde com facilidade: 15 cêntimos não valem sempre o mesmo.
Com o litro a 1,60€, como estava quando fiz esta viagem, 15 cêntimos eram 9,4% de desconto e davam 94 km. Com o litro a 2€, são 7,5% e dão 75 km. Subiu o preço do combustível, subiu o custo de lá ir, e a mesma diferença em cêntimos passou a pagar menos viagem.
Isto é contra a intuição, porque é precisamente quando o combustível está caro que apetece mais ir buscá-lo barato.
A tabela
Distância máxima que compensa percorrer a mais, ida e volta somadas, para 50 litros abastecidos e com o litro a 2€ deste lado da fronteira:
| Diferença por litro | Gasóleo, 5 L/100 | Gasolina, 7 L/100 |
|---|---|---|
| 5 cêntimos | 25 km | 18 km |
| 10 cêntimos | 50 km | 36 km |
| 15 cêntimos | 75 km | 54 km |
| 20 cêntimos | 100 km | 71 km |
| 25 cêntimos | 125 km | 89 km |
| 30 cêntimos | 150 km | 107 km |
A gasolina fica sempre atrás por uma razão só: com os mesmos 50 litros, um carro de 7 L/100 anda 714 km em vez de 1 000, e é a autonomia que manda.

Uma nota sobre esta tabela, que é o motivo pelo qual ela existe. Na primeira versão deste artigo as contas estavam certas e o resumo estava errado: escrevi que a gasolina só compensava aos 30 cêntimos, quando os meus próprios cálculos, uns parágrafos acima, já davam lucro aos 20. É o que acontece quando se escrevem seis exemplos em vez de uma regra. Os exemplos não se conferem uns aos outros. Uma regra confere-se sozinha.
O que esta conta não conta
Faltam-lhe três coisas, e as duas primeiras podem virar a tabela do avesso.
As portagens. Esta é a que pode matar a viagem sozinha, e resolve-se com uma divisão. Uma portagem de 5€, ida e volta, dividida pelos 50 litros que vais trazer, são 10 cêntimos por litro. Tiram-se à diferença de preço e continua-se com a mesma tabela: uma diferença de 15 cêntimos com 5€ de portagem vale, na prática, 5 cêntimos, e o limite desaba de 75 km para 25. Serve para qualquer custo fixo da viagem. Divide-se pelos litros e sai direto do desconto.
O desgaste. Um carro não gasta só combustível por quilómetro. Gasta pneus, travões, revisões, e sobretudo desvaloriza. O Estado, quando paga a alguém para usar o carro próprio em serviço, paga 0,40€ por quilómetro. Não é uma medição do custo real do teu carro, é um valor de reembolso, e inclui parcelas que tu pagas andes ou não andes. Mas dá o outro extremo do intervalo, e o outro extremo é brutal: a 0,40€/km, uma ida e volta de 120 km custa 48€. Para poupar 48€ em 50 litros, precisavas de uma diferença de 96 cêntimos por litro. Isso não existe em lado nenhum.
Falta uma terceira que não tem preço de tabela. 120 km por estrada nacional são cerca de hora e meia, e uma hora da tua vida vale quase sempre mais do que a conta que fazemos de cabeça. Põe-lhe um valor qualquer, mesmo baixo, e os casos apertados desaparecem todos.
É esta a distância entre a linha do teu combustível e a linha tracejada do gráfico. Lá dentro cabe tudo, e o que lá está depende de pressupostos que ninguém consegue fixar. Quando a resposta muda de sinal consoante o pressuposto que escolheres, a resposta é que não vale a pena pensar mais nisso. Ganhar 40 cêntimos numa viagem de 120 km não é ganhar. É ter razão numa folha de cálculo.
Porque é que é mais barato do outro lado
A diferença não é engenho espanhol nem sorte. É fiscalidade. O IVA em Espanha é 21% e em Portugal é 23%, e o imposto espanhol sobre os hidrocarbonetos é mais baixo do que a soma do ISP, da contribuição rodoviária e da taxa de carbono que pagas cá. Se quiseres ver de que é feito, ao cêntimo, o preço afixado num posto português, decompus isso todo noutro artigo.
E não, não é combustível pior. O gasóleo vendido em Espanha cumpre a mesma norma europeia que o vendido cá, a EN 590, e a gasolina cumpre a EN 228. Aquilo de vir tudo do mesmo lado vale de um lado e do outro da fronteira: o produto é o mesmo, o que muda é o que lhe acrescentam por cima em imposto.
Daqui sai uma coisa prática. A diferença tende a existir, porque a diferença de impostos é estrutural. Mas o tamanho dela é uma decisão política e não um facto da natureza: já houve descontos temporários dos dois lados da fronteira, e há de voltar a haver. É mais uma razão para guardar a regra em vez do número.
O número que interessa nunca foi a distância a Espanha
Tudo o que está acima assume uma coisa que quase nunca é verdade: que fazes a viagem só para atestar.
Eu não fiz. Fui ver amigos, e a gasolineira espanhola não me custou 120 km. Custou os quilómetros a mais do que eu ia fazer de qualquer maneira.
E aí a conta vira do avesso. Se o desvio for de 20 km, ida e volta somadas, um carro de 5 L/100 gasta 1 litro, ou seja 2€. Contra 7,50€ poupados, sobram 5,50€. E o limiar desaba: com um desvio de 20 km, bastam 4 cêntimos de diferença por litro para valer a pena.
Numa viagem dedicada, quase nada compensa. Num desvio, quase tudo compensa. É a mesma gasolineira, o mesmo preço e o mesmo carro, e a resposta muda por completo.
A pergunta, afinal, nunca foi “compensa ir a Espanha?”. É “quantos quilómetros a mais é que isto me custa?”.
Antes de fechares o separador
Não vendo combustível nem tenho nada a ganhar com o que decidires fazer com o teu depósito. Fiz estas contas porque queria tê-las visto feitas antes de conduzir 120 km atrás de 40 cêntimos.
Se moras perto da fronteira, ou passas por lá com alguma frequência: qual é a diferença por litro que costumas ver, e a quantos quilómetros a mais é que te fica a gasolineira?






Faltou aqui somar à comparação o desgaste do veículo (pneus, travões) e portagens (se as houver).
Artigo revisto, obrigado pela nota.
Faltou saber para andar 120km ida quantos litros se ponha no depósito para quanto chega a Espanha, depois encher, e ver que tipo de gasto se teria para voltar… e com quantos litros se ficava no depósito a preços mais econômicos, para andar com o veículo a circular no dia a dia…
Revi o artigo, e creio que agora endereça a questão pertinente que colocas no comentário.
Obrigado!