Sublinhei 18 passagens do Warren Buffett, e só uma diz o que comprar

Drfy FRWsAU XUR

Comecei a investir em 2020, e foi nesse ano que li a biografia do Warren Buffett escrita pela Alice Schroeder, o Efeito Bola de Neve. Fartei-me de sublinhar.

Quando mais tarde fui juntar os sublinhados para escrever isto, dei com uma coisa que não estava à espera. De 18 passagens, uma única me diz o que comprar. As outras dizem o que não fazer, como pensar, ou nem sequer são sobre dinheiro.

Aquilo que eu tinha guardado como conselhos de investimento eram quase todos conselhos de comportamento.

E é por isso que ainda se leem

Aqui está a razão, e serve para muito mais do que o Buffett.

O conselho que diz o que não fazer envelhece bem. O que diz o que comprar envelhece à velocidade do mercado.

Uma dica sobre uma ação vale enquanto aquela ação estiver naquele preço, o que costuma ser dias. Um aviso sobre não investir no que não se percebe vale desde que há mercados e vai valer depois de nós. Um homem que investe há mais de 75 anos acumula sobretudo o segundo tipo, porque foi o único que lhe continuou a servir enquanto tudo o resto mudava.

Não são todas do mesmo peso, e algumas fazem-me confusão. Vão na ordem em que fazem sentido, e não na ordem em que as sublinhei.

As que dizem o que não fazer

“A primeira regra é não perder dinheiro. A segunda é não esquecer a primeira.”

Se não entendes o risco de um investimento, não o faças. Esquece os super lucros que o teu amigo disse que teve, porque ele nunca te vai contar que também perdeu metade do património na mesma semana. Investe no que percebes e confia no processo.

“Não investimos em negócios que não compreendemos.”

É a mesma coisa dita outra vez, e ele repete-a ao longo de toda a vida. Eu também não me importo de a repetir: se não percebes como funciona, não fazes.

“Não vou abandonar uma abordagem cuja lógica entendo para seguir outra que não compreendo.”

Esta é a versão da anterior aplicada à moda do momento. A novidade tem um problema estrutural, que é ser facilmente perecível. Se aquilo que fazes funciona e é uma coisa que percebes, mantém o rumo.

“Sê temeroso quando os outros forem gananciosos e ganancioso quando os outros forem temerosos.”

Se fizeres o mesmo que os outros, no máximo igualas-os. E se toda a gente estivesse sempre certa, toda a gente seria milionária, o que é impossível por definição.

“Não perder dinheiro. Não esquecer isso. Não se endividar.”

Não compres coisas só porque as podes pagar amanhã. Evita bens que se depreciam e que te trazem mais despesa do que retorno.

“Sempre que tenho dinheiro, ponho-o a trabalhar.”

Dinheiro parado perde para a inflação, e se estiver numa conta com comissão de manutenção perde duas vezes. A exceção é o fundo de emergência, que existe precisamente para estar quieto. E repito o aviso de cima: também não o metas em produtos que não percebes só porque sim.

A única que diz o que comprar

“É melhor comprar uma empresa excelente a um preço justo do que uma empresa mediana a um preço excelente.”

A qualidade conta mais do que o preço. Pagas mais e ficas exposto a uma empresa com provas dadas, o que é uma forma de eliminar risco e, ironicamente, de poupar dinheiro no longo prazo.

Repara que mesmo esta, que é a mais próxima de uma instrução de compra, não te diz o que comprar. Diz-te que critério usar. É a única da lista que fala de escolher, e mesmo assim recusa-se a nomear seja o que for.

As que são sobre a cabeça e não sobre a carteira

“Quem gasta menos do que ganha acumula cheques para o futuro.”

É o conselho central do Homem mais rico da Babilónia, e é o melhor que já me deram. Gastar menos do que se ganha tem mais impacto do que investir bem durante 30, 40 ou 50 anos, porque é comportamental e transita para tudo o resto na vida.

“O fator mais importante para chegar onde cheguei foi o foco.”

Consistência. Há alguma coisa em que sejas mesmo bom? Aposto que foi a consistência que te levou lá. Se tocas bem guitarra, praticaste muito.

“O que fizerem hoje molda o vosso corpo e a vossa mente daqui a 20 anos.”

Pequenas decisões acumuladas moldam a pessoa que és. O ganho está no 1% que podes fazer melhor, e não em tentar mudar o mundo.

“Comecei a minha bola de neve cedo.”

Quanto mais cedo, melhor. Se já tens 50 ou 60 anos e ainda não começaste, o melhor dia para começar terá sido há dez anos e o segundo melhor é hoje.

“Só se pode ter sucesso se se pensar de forma independente.”

O que importa não é o que a sociedade acha melhor para ti, é o que tu achas, e essa opinião assenta no histórico mais rico que existe: ninguém é tão bom como tu a ser como tu és. Peço desculpa se soou a Gustavo Santos.

“Aprendi que compensa andar com pessoas melhores do que nós.”

Diz-se muito que somos a média das cinco pessoas com quem mais convivemos, e não sei se o número tem alguma coisa por trás. O mecanismo tem: as pessoas à tua volta decidem o que te parece normal, e o que te parece normal decide quase tudo sem tu dares por isso.

“Personaliza os elogios, categoriza as críticas.”

Não é uma lição financeira, mas influencia decisões. Critica o sistema e não a pessoa. E um elogio dirigido a alguém em particular vale muito mais.

“Negócios simples tendem a ser mais seguros a longo prazo.”

Simples é diferente de básico. Um negócio simples é um negócio fácil de compreender, e se compreendes, controlas melhor o que te vai acontecer com ele.

As duas que não são sobre dinheiro nenhum

“O sentido da vida é ser amado por quem queremos que nos ame.”

Tinha de sublinhar isto. Não é para ser sentimental: tudo o resto só faz sentido com as pessoas importantes do nosso lado. Investe nessas relações, e só depois investes o dinheiro.

“Não participaremos em negócios que possam causar grandes problemas humanos.”

E esta é a que me custa, por isso vou escrevê-la a direito.

Invisto em fundos de ações onde estão, entre outras, empresas que não são propriamente as mais éticas do mundo. Para saber se todas o são, teria de ler os relatórios anuais todos, e isso consumia-me mais tempo do que eu tenho.

O que faço em vez disso é ter uma participação ética onde tenho influência direta: doar para campanhas, apoiar associações, dar ao Banco Alimentar, andar mais a pé e menos de carro. São coisas que faço por gosto e que têm efeito positivo sem passar por abstração nenhuma.

O Warren Buffett sempre viveu como investidor, e ler relatórios sempre foi o trabalho dele. O equivalente meu é este. Admito as minhas limitações em garantir ética em todas as minhas movimentações, e estaria a ser hipócrita se dissesse o contrário. Podes e deves contestar nos comentários.

Uma passagem que não é bem dele

“No curto prazo, o mercado é uma máquina de votos. No longo prazo, é uma balança.”

Esta merece uma nota, porque é a mais citada de todas e a atribuição anda trocada por aí.

A ideia da máquina de votos é do Benjamin Graham, no Security Analysis de 1934, e vale a pena notar o que ele escreveu de facto: que o mercado não é uma balança, mas sim uma máquina de votos onde cada um regista escolhas feitas em parte de razão e em parte de emoção. Foi o Buffett, que foi aluno do Graham, quem acrescentou a segunda metade, a de que no longo prazo acaba por ser uma balança.

Sobre o conteúdo, continua a ser a mais útil da lista para quem investe: não interessa o que está a acontecer hoje. Interessa quanto é que o teu património cresceu nos últimos dez anos, e não desde ontem.

O que esta lista não prova

Falta dizer a coisa mais desconfortável do artigo, e falta dizê-la mesmo tendo eu escrito tudo o que está acima.

Estas passagens são de uma pessoa, e essa pessoa foi escolhida porque ganhou. É o género de prova mais fraco que existe. Se o Buffett tivesse feito exatamente as mesmas escolhas e tivesse corrido mal, ninguém teria escrito a biografia e eu não teria nada para sublinhar. Há muitas pessoas que seguiram estes princípios e cujos livros não existem.

Isto não faz dos conselhos maus. Faz deles conselhos que têm de se aguentar pelo mecanismo e não pelo resultado de quem os deu. É por isso que os que aguentam melhor este teste são precisamente os do género “não faças o que não percebes”: esses explicam-se sozinhos, sem ser preciso acreditar em ninguém.

Se quiseres continuar por aqui, tenho ainda as lições do Naval Ravikant e uma lista de livros que sobreviveram a eu voltar a eles.


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