O dinheiro vai-te voltar. As horas, não.

Para De Pensar No Dinheiro Como Numero Comeca A Pensar Nele Como Tempo

A torrada com manteiga e o galão que muita gente toma na padaria a caminho do trabalho custam, em média, 3,50€. Para os poderes tomar todos os dias úteis, para o resto da vida, sem nunca mais teres de trabalhar para os pagar, precisas de ter cerca de 21 000€ investidos.

Não é retórica, é o que sai da regra dos 4%. E é a mesma conta que diz que um carro de 25 000€ custa perto de 3 700 horas de vida a quem ganha 1 400€ líquidos por mês.

A pergunta errada

Há uma pergunta que destrói orçamentos: “posso pagar?”

Quando olhas para umas sapatilhas de 120€ e perguntas se podes pagar, a resposta é quase sempre sim. Está no orçamento, cabe no cartão, não ficas a zeros. A pergunta está desenhada para ter a resposta que queres.

Há outra, bastante mais incómoda: quantas horas da minha vida é que isto vai custar?

A ideia não é minha, e é bem mais velha do que eu pensava. A formulação moderna é de Vicki Robin e Joe Dominguez, no Your Money or Your Life, de 1992: o dinheiro é energia vital cristalizada. Cada euro que tens no bolso é um pedaço de vida que trocaste por ele.

Só que Thoreau já tinha escrito exatamente isto em Walden, em 1854: o custo de uma coisa é a quantidade de vida que é preciso trocar por ela. E Séneca tinha escrito o essencial ainda antes, em Sobre a Brevidade da Vida, onde se queixa de que as pessoas defendem o dinheiro com unhas e dentes e dão o tempo a quem lho pedir.

Uma ideia que sobrevive dois mil anos e continua a ser redescoberta de cem em cem anos costuma ter alguma coisa. Não é um truque de produtividade que apareceu no ano passado.

O número que não diz nada

Olha para o saldo da tua conta. Vês um número. Esse número não te diz o que custou ganhá-lo, nem o que vais perder ao gastá-lo.

O dinheiro é abundante. Imprime-se, empresta-se, cria-se. Há biliões de euros em circulação, e no ano passado havia menos. O tempo não. Tens à volta de 4 000 a 4 500 semanas, se tudo correr bem, e já gastaste uma boa parte delas. Da parte que sobra, a maioria já está hipotecada a coisas que não escolhes: dormir, trabalhar, deslocar-te, comer, recuperar.

A unidade de medida certa para uma decisão financeira nunca foi o euro. É a hora.

Converter euros em horas, sem fazer batota

A conta em si é trivial. O que custa é não fazer batota nos números que lá entram.

Precisas de duas coisas: quanto te entra na conta por mês, depois de IRS e Segurança Social, e quantas horas é que esse dinheiro te custa de verdade. A segunda é a difícil, porque não são as 160 horas do contrato. É preciso somar as deslocações, a hora de almoço que não podes usar como te apetece, o tempo a descomprimir à noite porque o dia foi o que foi, e as horas de fim de semana em que estás a pensar em prazos em vez de estares no que estás.

Com 1 400€ líquidos, no papel a hora vale 8,75€.

Somando meia hora de deslocação por dia, uma hora de almoço, meia hora de descompressão à noite e umas duas horas por fim de semana, o mês passa de 160 para cerca de 209 horas. A hora real cai para 6,71€. Uma queda de 23%.

Espera, a hora de almoço conta mesmo?

É a entrada mais discutível de todas, e a resposta muda o resultado: sem ela, a hora real fica em 7,42€ em vez de 6,71€. Não vou fingir que há uma resposta certa. O que interessa é que o número que uses seja o mesmo em todas as contas que fizeres a seguir, senão estás só a escolher a régua que te dá o resultado de que gostas mais.

Se trabalhas por conta própria ou tens rendimentos irregulares, a versão que funciona é somar o líquido dos últimos doze meses e dividir pelas horas reais desse ano, prospeção e faturação incluídas. Atualiza-se uma vez por ano e está feito.

O que muda quando a régua muda

Aos 6,71€ à hora, aquele almoço de 12€ na rua deixa de ser doze euros e passa a ser quase duas horas de vida. A subscrição de 15€ por mês que mal usas passa a ser duas horas e um quarto todos os meses, e 27 horas por ano.

A subscrição da Netflix que não custa 13€ deixa de ser uma metáfora e passa a ser uma medida.

E depois há os grandes. Um carro de 25 000€, a esse salário, são 3 726 horas reais. Dito de outra maneira, e talvez com mais efeito: são ano e meio de tudo o que ganhas, líquido, sem tirar um cêntimo para comer ou dormir, num objeto que vai valer metade no fim.

É a mesma coisa que separa os bens que valorizam dos que desvalorizam. A diferença é que em horas dói mais depressa.

A regra dos 4%, e a conta que apetece fazer

Cada euro que poupas e investes não te dá só dinheiro, dá-te tempo futuro. A régua habitual para medir isso é a regra dos 4%: podes retirar 4% da carteira no primeiro ano e ir ajustando à inflação, com uma probabilidade razoável de o dinheiro durar trinta anos.

Convém dizer o que ela é antes de a usar. Saiu de um estudo dos anos 90 sobre carteiras americanas, num período histórico particularmente generoso, e a horizontes de trinta anos. Não é uma lei da natureza, é uma regra prática que pode falhar. Uso-a aqui como ordem de grandeza, não como promessa.

E agora a parte onde é fácil escorregar. A conta que apetece fazer é esta: 2 500€ poupados dão 100€ por mês para o resto da vida.

Soa muito bem, e está errada por um fator de doze. 2 500€ a 4% dão 100€ por ano, ou 8,33€ por mês. Para 100€ por mês são precisos 30 000€.

E como é que uma coisa destas passa despercebida?

Porque a conta certa e a conta errada têm exatamente o mesmo aspeto, e porque 100€ por mês soa muito melhor do que 8€. É por isto que faço questão de mostrar sempre o método: o método é o que permite a qualquer pessoa apanhar-me em erro.

A boa notícia é que a regra lida ao contrário é bastante mais útil do que lida assim:

Para pagares uma despesa recorrente para sempre, precisas de ter cerca de 25 vezes o seu custo anual investido.

Não é uma frase sobre compras avulsas. É uma frase sobre hábitos, e os hábitos é que são caros.

A torrada e o galão

Voltemos ao pequeno-almoço na padaria. 3,50€, vinte dias úteis por mês, quarenta anos de vida ativa.

CustoHoras de vida
Por mês70€10,4
Por ano840€125
Em 40 anos33 600€5 008

São 33 600€ e mais de 5 000 horas, que ao ritmo a que se vive um ano de trabalho a sério dá dois anos certos. E, pela regra dos 25, sustentar esse hábito para sempre a partir de rendimentos exige ter 21 000€ de lado. É o número com que este artigo abriu.

Se esses 70€ por mês tivessem ido para uma carteira a render 6% ao ano, ao fim de quarenta anos seriam cerca de 139 400€. Convém dizer as duas coisas que costumam ficar de fora: desses 139 400€, 105 800€ são mais-valias, e o Estado leva 28% delas, o que deixa perto de 109 800€ na mão. E 6% nominais em quarenta anos não são 6% de poder de compra. Descontando uns 2% de inflação, o que sobra em euros de hoje são uns 82 700€.

Continua a ser muito dinheiro para uma torrada.

E não é um argumento para deixares de tomar o pequeno-almoço fora. É que os gastos pequenos são os únicos que se repetem, e é a repetição que faz o estrago, exatamente da mesma forma que faz o ganho quando pequenas decisões disciplinadas se compõem ao longo do tempo. Toda a gente tem cuidado com o carro, que se compra uma vez de cada oito anos, e ninguém tem cuidado com o galão, que se compra 250 vezes por ano.

A armadilha

Esta lente estraga-se com facilidade. Bem usada dá clareza, mal usada dá culpa a cada café e paralisia a cada decisão, e não conheço ninguém que tenha melhorado a vida financeira por se sentir mal com ela.

Há coisas que valem sem discussão as horas que custam. Um colchão que devolve sono. Uma ferramenta que poupa horas. Uma viagem que fica. O Naval Ravikant diz que a riqueza não é o dinheiro acumulado, é a liberdade de usar o teu tempo como entenderes, e gastar dinheiro em coisas que te devolvem tempo ou energia é precisamente isso a funcionar.

Há também quem goste genuinamente do trabalho, e para essa pessoa a conta não deixa de fazer sentido, só deixa de doer. Se a maior parte das tuas horas de trabalho é tempo bem passado, então estás a trocar pouco por muito. A régua continua a servir, mas para decidires onde pões o que sobra, não para te convencer de que estás a ser roubado.

O que eu faço, que é menos do que parece

A última coisa que quero é ficar a fazer contas de cabeça no supermercado.

Calculei a hora real uma vez e apontei-a, e a partir daí passou a ser mais instinto do que sistema. Nas coisas pequenas não penso, porque o tempo que passaria a pensar custa mais do que aquilo que estou a decidir. Nas coisas grandes a conta aparece sozinha, sem eu a chamar, e às vezes em alturas inconvenientes. Pelo meio fica uma zona cinzenta enorme, em que há dias em que faço a conta e dias em que não me lembro dela, e não me parece que isso seja defeito nenhum.

O que faço com alguma regularidade é converter em horas os maiores gastos do mês. Não é para me castigar, é porque a lista costuma trazer surpresas, e as surpresas é que são a informação.

E há uma coisa que aprendi a incluir, porque no início não incluía: as horas de manutenção. Um carro maior não custa só horas de compra, custa horas de seguro, de IUC, de combustível e de oficina. Uma casa maior custa horas de limpeza, de manutenção e de IMI. Há uma frase do Tyler Durden no Clube de Combate que descreve isto melhor do que eu consigo: as coisas que possuis acabam por te possuir a ti. Contado em horas, deixa de ser uma frase de filme.

Uma nota antes de acabar

Isto é o que eu faço e o que fui percebendo a fazer contas, não é aconselhamento de quem esteja habilitado a dá-lo. Os números aqui saem de um salário concreto e de pressupostos que deixei à vista, e servem como método e não como resposta. Com o teu salário e as tuas horas dá outra coisa qualquer, e é essa que interessa.

A regra dos 4% é uma regra prática construída sobre dados históricos de um só mercado. Trato-a como ordem de grandeza, e ninguém a devia tratar como garantia.

O orçamento a sério

Não vou pedir-te para mudares a tua relação com o dinheiro amanhã de manhã. Isso não acontece a ninguém.

O que me mudou a mim foi mais pequeno: na vez seguinte em que estava prestes a gastar acima de 50€, parei e converti em horas. Se o número me fez hesitar, ouvi a hesitação. Se me fez sorrir, comprei com gosto e sem pensar mais nisso.

O dinheiro vai-te voltar. As horas, não.

Qual foi o gasto que mudou completamente de aspeto quando o converteste em horas?


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