Em descida, com o pé fora do acelerador e a mudança engatada, o motor de qualquer carro moderno corta a injeção por completo. Consumo zero, literalmente. Em ponto morto, o motor tem de continuar a ser alimentado para não se apagar, e gasta entre meio litro e mais de um litro por hora.
Ou seja, o truque do ponto morto em descida, que toda a gente já ouviu e muita gente faz, gasta mais do que não fazer nada. E ainda por cima tira-te a travagem do motor numa altura em que ela dá jeito.
Começo por aqui porque este engano explica a regra que arruma todo o resto.
Há duas contas, e não há terceira
Tudo o que se gasta a mais em combustível cai numa de duas contas.
Energia que compraste e deitaste fora. Puseste combustível no depósito, o motor transformou-o em velocidade, e depois atiraste essa velocidade ao chão. É o travão, e é praticamente só o travão.
Energia que compraste sem ser preciso. Combustível que foi para aquecer metal, para empurrar ar, para deformar borracha ou para manter um motor a trabalhar parado.
Não há mais nada. Todas as técnicas que se seguem são maneiras de reduzir uma das duas, e é útil saber qual, porque as da primeira conta dependem só das tuas mãos e as da segunda dependem de decisões que se tomam antes de entrar no carro.
Nada disto é invenção minha. Boa parte vem de um movimento chamado hypermiling, e eu cheguei lá por via do Mr. Money Mustache, que escreve sobre isto há muito mais tempo do que eu. O que fiz foi testá-las cá, com preços portugueses e estradas portuguesas, e deitar fora as que não sobreviveram.

As três coisas que não aparecem no desenho, os pneus, o peso e o ar condicionado, não têm um sítio na viagem porque se pagam em todos os metros dela.
A primeira conta: o travão
A minha condução é orientada à antecipação e ao não uso do travão. Calma, não sou nenhum terrorista, só gosto de evitar ter de travar.
E porquê? Cada vez que travas estás a desperdiçar o esforço que o motor fez para te pôr a rodar àquela velocidade. Fizeste o investimento, em forma de combustível, e depois disseste “quero andar mais devagar imediatamente”, e esse combustível não volta para o depósito. Desperdiçaste metros grátis.
Antecipa. Antecipa que aquele carro lá à frente vai virar à direita e vai demorar a fazê-lo, antecipa o semáforo que com toda a probabilidade vai ficar vermelho porque já está verde há muito tempo, antecipa que aqueles peões vão atravessar, antecipa a curva apertada mais lá ao fundo. Se antecipares, tiras o pé, e nesse momento o consumo cai para zero pela mesma razão que caía na descida.
Há uma maneira simples de saber se estás a fazer isto bem, e não precisa de computador de bordo: se estás a usar muito o travão, estás a conduzir mal. Não é uma questão de estilo, é a única parte do carro cuja função é converter dinheiro em calor.
A segunda conta: o que se compra sem ser preciso
O ar, e porque é que ele cresce ao quadrado
A maior parte dos carros é mais eficiente algures entre os 80 e os 105 km/h. Acima disso, o que domina é o ar, e o ar tem uma característica que muda a conversa: a energia gasta a empurrá-lo, por cada quilómetro, cresce com o quadrado da velocidade.
De 110 para 120, a velocidade sobe 9% e a parte da conta que é ar sobe 19%. E o que ganhas? Numa viagem de 100 km, 110 km/h demora 54 minutos e meio, e 120 demora 50. São quatro minutos e meio.
O que faz esta troca ser má não é o tamanho de nenhum dos dois números, é a direção deles: o tempo poupa-se pelo inverso da velocidade e o combustível gasta-se pelo quadrado. Quanto mais depressa fores, pior fica a troca. Em viagem longa ponho o cruise control nos 110 ou 115 e chego cinco minutos depois, o que ainda não me estragou nenhum plano.
O motor frio, que é o mais caro de todos
Quando o carro está frio consome muito mais, e “muito mais” aqui não é figura de estilo. A Volkswagen escreve-o com todas as letras: quem faz frequentemente viagens curtas pode ver o consumo disparar para 30 L/100 km. Seis vezes o normal.
Daí saem duas coisas que faço.
A primeira é a regra do quilómetro: só uso o carro para distâncias abaixo de um quilómetro se for mesmo preciso. Dias de chuva em que tenho de ir buscar o miúdo, transportar coisas pesadas, e pouco mais. Nos outros, o carro fica na garagem. E isto não é só combustível, porque um arranque que não é compensado por tempo suficiente a trabalhar também castiga a bateria.
A segunda é agrupar. Ir aos correios de manhã e ao supermercado à tarde são dois arranques a frio. Ir aos dois de seguida é um arranque a frio e um percurso com o motor já quente. É a mesma lista de tarefas a metade do preço da parte cara.
Nem todos os quilómetros são iguais, claro. Quem vive numa zona inclinada tem desvantagem à partida, e há bairros onde o quilómetro a pé não é uma opção razoável.
O ralenti
Um motor parado a trabalhar gasta entre meio litro e mais de um litro por hora, conforme a cilindrada, e move o carro zero metros. É a única linha deste artigo em que o que compras não te dá absolutamente nada.
Se a paragem vai durar mais do que uns momentos, desligo. Os carros modernos com start-stop já fazem isto sozinhos, e quem tem essa função e a desliga por achar o arranque desagradável está a pagar por esse conforto uma quantia que dá para calcular.
Os pneus, e os dois números que andam por aí
Esta é a dica mais repetida do mundo e também aquela onde circulam os números mais contraditórios. Vale a pena arrumar isso.
A Volkswagen diz “poupe até 15% verificando a pressão dos pneus”. Outras fontes falam em 2% a 3%. As duas coisas podem ser verdade porque estão a falar de situações diferentes: os 15% são um teto, para pneus mesmo vazios, e os 2% a 3% são o que se ganha ao corrigir a meia barra a menos que a maior parte dos carros anda a ter.
Ou seja, é uma dica boa e não é milagrosa. O meu carro não tem sensores de pressão, por isso vou pelo olhómetro: se me parecer baixo, encho; se não, volto a olhar daqui a mil quilómetros.
Faz-me um favor: vai ver as pressões recomendadas na tampa do combustível ou no pilar da porta, e vê como estão as tuas na próxima vez que abasteceres. Custa dois minutos e é a única manutenção deste artigo que é gratuita.
E se o consumo te subiu sem explicação aparente, os pneus são só uma das hipóteses. A Prevenção Rodoviária Portuguesa tem uma lista das razões mais comuns, e várias delas são de oficina e não de condução.
O peso, que rende menos do que parece
A mesma página da Volkswagen dá o número que permite fazer a conta: 100 kg a mais aumentam o consumo em até 0,3 litros por cada 100 km.
Agora faz a conta ao que tens na mala. Vinte quilos de tralha esquecida são 0,06 L/100 km. Em 15 000 km por ano são 9 litros, ou uns 18€ com o litro a 2€.
Dezoito euros por ano. Vale a pena esvaziar a mala, e vale a pena saber que vale dezoito euros e não cem, porque a mesma meia hora aplicada a renegociar um contrato rende bastante mais. Uma dica pequena não deixa de ser verdadeira por ser pequena; o que não pode é ser vendida como grande.
O ar condicionado, e a velocidade a que a resposta muda
Aqui há uma regra de bolso que se repete muito, que é abrir as janelas na cidade e ligar o ar condicionado na autoestrada. É verdade, e a razão é a mesma do quadrado da velocidade.
As janelas abertas estragam a aerodinâmica, e o que isso custa cresce com o quadrado da velocidade. O ar condicionado consome mais ou menos o mesmo em qualquer velocidade, porque o compressor faz o mesmo trabalho a 50 ou a 120. Uma coisa cresce e a outra é quase plana, portanto há necessariamente uma velocidade em que se cruzam.
Onde é esse cruzamento depende do carro, e por isso é que os números que se leem por aí variam tanto. O que não varia é a forma: em cidade as janelas ganham, em autoestrada o ar condicionado ganha, e há uma faixa pelo meio em que tanto faz.
A conta que não é de combustível
Em 2021 comecei a trabalhar num sítio que me obrigava a passar por portagens todos os dias. Tinha duas alternativas: nacional em 25 minutos e sem portagem, ou autoestrada em 15 minutos com 80 cêntimos por dia.
A tentação é comparar 80 cêntimos com o combustível poupado e ficar por aí. Mas há uma terceira parcela, e é a maior: os 10 minutos.
Faz a divisão. 80 cêntimos por dia, uns 220 dias úteis, são 176€ por ano. Dez minutos por dia nesses mesmos 220 dias são cerca de 37 horas. Portanto a portagem está a vender-me horas a 4,80€ cada uma.
Portagem paga a dividir pelo tempo poupado é o preço a que estás a comprar horas. Compara com o que vale a tua.
E aí a resposta deixa de ser uma questão de opinião, porque o valor da tua hora é uma coisa que dá para calcular, e não é o teu salário a dividir pelas horas de contrato. No meu caso a autoestrada compensou, com o combustível e o desgaste do pára-arranca ainda por cima a somar do mesmo lado.
Repara que esta régua não tem preços de portagem lá dentro nem serve só para portagens. Serve para qualquer coisa que se pague para poupar tempo.
Onde abastecer, que é a parte fácil
Depois de tudo isto, o sítio onde metes o combustível é a decisão mais simples e a que menos exige de ti.
Junta os descontos que já existem. Se fazes compras no Continente tens talão de desconto na Galp, e a aplicação da Galp acumula mais um pouco. A BP faz par com o Pingo Doce e a Repsol com o Lidl. Na BP há alturas em que consigo juntar 40 cêntimos por litro, o que num depósito são 20€. É claro que os gastei antes no supermercado, mas gastei-os em coisas que ia comprar de qualquer maneira, que é a única condição que torna isto uma poupança e não uma armadilha de promoção.
Não vou dizer para ires às marcas brancas. Estava a mentir, cá está a cantada para as marcas brancas. Faz as contas e vê se a Galp com 14 cêntimos de desconto bate mesmo aquele posto da Auchan ao pé de tua casa, porque muitas vezes não bate. E se o teu receio for a qualidade, o combustível vem todo do mesmo lado e cumpre as mesmas normas europeias: o que muda são os aditivos, e sobre isso já fiz a conta noutro artigo.
E o dia. Publico todas as semanas a previsão do preço para a semana seguinte, e serve para decidir se abasteces hoje ou na segunda. Não serve para muito mais, e convém dizê-lo: dois cêntimos num depósito de 50 litros é um euro. A previsão evita-te perder um euro; a antecipação evita-te perder o depósito inteiro em travagens.
Se a diferença de preço que andas a perseguir for grande ao ponto de justificar quilómetros a mais, isso já é outra conta e tem régua própria. E se quiseres perceber de onde vem o preço que está no letreiro, também escrevi sobre isso.
O que isto não resolve
Nada aqui muda o carro que tens, e o carro decide o ponto de partida. Um utilitário a gasóleo e um SUV a gasolina fazem a mesma viagem com contas diferentes, e nenhuma técnica de condução fecha essa distância.
Também não sei dizer-te quanto é que isto te vai poupar. Sei o que me poupou a mim, e sei que a maior parte da poupança veio das duas coisas mais aborrecidas da lista, que são não travar e não fazer viagens curtas com o motor frio. As outras somam.
E há a parte que dá para medir e que quase ninguém mede. Eu registo as despesas todas, com a aplicação Wallet, e foi isso que me permitiu perceber que isto estava mesmo a funcionar em vez de só me parecer que sim. A ferramenta é o menos importante e daqui a dez anos se calhar já nem existe. O que interessa é haver um sítio onde os números ficam, porque sem isso qualquer método é uma boa intenção.
Qual destas te parece a mais difícil de fazer no dia a dia?






Manter o sistema de injeção limpo também ajuda a poupar combustível. Uma forma de o fazer preventivamente é, ocasionalmente, usar aditivo para manutenção do sistema de injeção, ajudando a manter o bom funcionamento do mesmo!
Seguem alguns exemplos:
Gasóleo: https://www.higicar.pt/aditivo-limpeza-injetores-diesel-50ml
Gasolina: https://www.higicar.pt/aditivo-limpeza-injetores-gasolina-50ml