Os 400€ que o PPR te devolve no IRS compram cerca de 22 anos de um ponto percentual de comissão a mais.
Ao fim desses 22 anos o desconto acabou, e a comissão continua lá, todos os anos, até ao dia em que resgatares.
É esta a conta que decide se um PPR vale a pena, e não aparece em lado nenhum. O que aparece são os 400€, porque os 400€ chegam num mês e a comissão chega em trinta bocados que ninguém vê.
Escolher um PPR foi das coisas mais confusas que fiz com dinheiro, e perdi-me entre as opções como quase toda a gente se perde. Este é o artigo que gostava de ter lido antes.
Um PPR são três coisas empilhadas
Há um desconto à entrada, uma comissão todos os anos, e um imposto à saída.
Toda a conversa sobre PPR acontece à volta da primeira. É a que tem um número redondo, é a que aparece em dezembro na publicidade, e é a única das três que te dá alguma coisa. As outras duas é que decidem o resultado.
O que a dedução vale, medida em anos
A regra está no artigo 21.º do Estatuto dos Benefícios Fiscais: deduzes à coleta 20% dos valores aplicados no ano, com um teto que depende da idade que tinhas a 1 de janeiro desse ano. Até aos 35 anos, 400€. Entre os 35 e os 50, 350€. A partir dos 50, 300€.
Repara numa coisa que as três linhas escondem. 400€ em 2 000€, 350€ em 1 750€ e 300€ em 1 500€ são todos a mesma coisa: 20%. A taxa não muda com a idade. O que muda é até onde ela se aplica.
E 20% de dedução quer dizer que pagaste 1 600€ por 2 000€ de património. Começas o jogo com 25% a mais do que puseste lá.
Agora a segunda metade, que é a que ninguém faz. Uma comissão de 1 ponto percentual a mais come 1% do teu dinheiro por ano, e ao fim de 22 anos comeu os 25% de avanço. Ao fim de 30, já estás atrás.
A dedução compra cerca de 22 anos de um ponto percentual de comissão a mais. Divide-se 22 pelos pontos a mais e ficam os anos.
| Comissão a mais, por ano | O avanço da dedução dura |
|---|---|
| 0,5 pontos | 45 anos |
| 1 ponto | 22 anos |
| 1,5 pontos | 15 anos |
| 2 pontos | 11 anos |
| 2,5 pontos | 9 anos |
| 3 pontos | 7 anos |
Gosto desta regra porque não tem euros lá dentro nem depende da tua idade. É uma divisão por um número que está publicado.
Falta a ressalva, e é grande: os 400€ só existem se tiveres coleta que chegue e espaço no limite global de deduções à coleta, onde a saúde, a educação e as despesas gerais já estão à espera. Muita gente aplica os 2 000€ e recebe menos de 400€ de volta, ou não recebe nada. O limite é por contribuinte e não por agregado, o que também quer dizer que num casal são duas dotações e não uma.
A comissão tem um nome, e agora tem um sítio
O número a procurar chama-se TEC, taxa de encargos correntes. Junta a comissão de gestão, o depositário, a auditoria e a supervisão, e é o que sai do teu dinheiro todos os anos, tenha o fundo subido ou descido.
Durante anos isto era genuinamente difícil de comparar, e o melhor que havia era a lista da DECO Proteste. Entretanto mudou, e mudou por completo: os dois reguladores publicaram comparadores próprios, gratuitos, com rendibilidade, custos e risco lado a lado.
São dois porque os PPR também são dois, e essa é a divisão que interessa:
- PPR sob a forma de fundo de investimento. Não garantem capital, o valor oscila com o mercado, e quem os supervisiona é a CMVM. O comparador da CMVM abriu em dezembro de 2025 com 77 fundos, e mostra a rendibilidade média anual a 1, 2, 5 e 10 anos, a TEC e o indicador de risco numa escala de 1 a 7.
- PPR sob a forma de seguro. Garantem o capital, às vezes um rendimento mínimo, e quem os supervisiona é a ASF, a autoridade dos seguros e fundos de pensões. Tem plataforma própria, que abriu uns meses antes.
Não é o mesmo produto com dois nomes. Muda quem garante o quê, muda o risco, e muda onde é que vais buscar os números.
E há motivo para ir buscá-los. Em Portugal existem PPR com encargos abaixo de 0,5% e PPR acima de 3%. Entre um e outro vão 2,5 pontos percentuais por ano, e agora já sabes quanto tempo é que a dedução aguenta 2,5 pontos: nove anos.
E quem mete 5 000€ por ano, Micael? Isso ninguém explica.
Pois não. E é aí que o produto muda de natureza.
Acima do teto, é outro produto
A dedução acaba nos 2 000€. O euro 2 001 não traz desconto nenhum, e a partir dali um PPR é apenas um investimento com uma regra fiscal diferente à saída: as mais-valias são tributadas a 8%, em vez dos 28% que pagarias num fundo ou ETF normal.
São 20 pontos percentuais de imposto. Parece muito. A pergunta certa é quantos pontos de comissão é que isso paga por ano, e a resposta é menos de um:
| Horizonte | Comissão a mais que a saída a 8% paga |
|---|---|
| 10 anos | 1,14 pontos |
| 20 anos | 0,90 pontos |
| 30 anos | 0,72 pontos |
| 40 anos | 0,59 pontos |
Repara no sentido da coluna da direita. Quanto mais longo for o horizonte, menos vale a vantagem fiscal. É o contrário do que toda a gente assume, e a razão é simples: o imposto é um corte único no fim, e a comissão é uma percentagem que se aplica outra vez todos os anos, sobre um bolo cada vez maior. O tempo, que é o argumento de venda do produto, joga do lado da comissão.
Juntando as duas metades, num horizonte de 30 anos e contra uma alternativa barata:
[ INSERIR AQUI UM BLOCO IMAGEM COM grafico-tec.png ]
Legenda: Valor final líquido por cada euro investido ao fim de 30 anos, em função da taxa de encargos correntes do PPR, com e sem a dedução no IRS.
Cerca de 1,7% com a dedução, cerca de 0,9% sem ela. É este o descomplicómetro. Vais ao comparador, procuras a TEC do teu PPR, e comparas com estes dois números conforme o dinheiro esteja abaixo ou acima do teto da dedução.
Os pressupostos estão à vista e podes mexer neles: 6,76% de rendimento bruto anual, que é o pressuposto que uso no resto do site, e uma alternativa a 0,2% de encargos tributada a 28%. Se achares o rendimento otimista, os dois limiares descem juntos.
A cláusula de saída
Falta a terceira coisa empilhada, e é a que menos gente conhece.
A dedução não é um presente, é um desconto com condições. Se resgatares fora das situações previstas na lei, o artigo 21.º manda somar à tua coleta de IRS “as importâncias deduzidas, majoradas em 10% por cada ano, ou fração, decorrido”.
O que isso quer dizer em euros: 400€ deduzidos e resgatados cinco anos depois voltam como 600€. Ao fim de dez anos, 800€. Ao fim de vinte, 1 200€. É a única cláusula deste produto que rende mais do que o produto.
As situações que não desencadeiam isto são as previstas na lei: reforma por velhice, ter 60 anos ou mais, desemprego de longa duração, incapacidade permanente para o trabalho, doença grave, morte, e pagar prestações de crédito à habitação. Nas primeiras exige-se que tenham passado pelo menos cinco anos sobre a entrega; noutras, como o desemprego de longa duração e a doença grave, não há prazo.
E agora a parte que quase ninguém diz. Fora das condições legais, as mais-valias são tributadas a 21,5% até aos cinco anos, 17,2% entre os cinco e os oito, e 8,6% depois dos oito, desde que pelo menos 35% do total tenha sido entregue na primeira metade do contrato.
São 8,6% contra os 8% de quem cumpre tudo. Seis décimas de ponto.
Ou seja: o bloqueio pertence aos euros que deduziste, não ao produto. Sobre o dinheiro que puseste acima do teto, e do qual nunca deduziste nada, um PPR com mais de oito anos é praticamente tão líquido como qualquer outra coisa. A parte assustadora do PPR aplica-se exatamente à parte que o Estado subsidiou, o que faz todo o sentido e nunca está escrito ao lado dos 400€.
O que esta conta não conta
A garantia de capital tem preço, e não aparece na TEC. Um PPR-seguro que garante o capital compra essa garantia com rendimento esperado mais baixo. Não é uma comissão, é um custo, e é invisível na tabela de encargos. Quem compara um seguro com um fundo só pela TEC está a comparar duas coisas diferentes.
A rendibilidade passada é passada. Os comparadores mostram 1, 2, 5 e 10 anos, e a tentação é escolher o que está no topo. A TEC de hoje é o único número daqueles que vais mesmo pagar amanhã.
E há uma vantagem que não é financeira. Um PPR é dinheiro chato de tirar. Para quem se conhece o suficiente para saber que mexeria naquilo, o atrito é uma característica e não um defeito, e isso não entra em nenhuma folha de cálculo. Só não convém confundir o valor do atrito com o valor do produto, porque só um dos dois vem com uma comissão anexada.
Se quiseres ouvir alguém de dentro da indústria a explicar como pensa nisto, tenho uma conversa com o Luís Lobo Jordão, CFA, que colabora com a SGF e criou lá um PPR. Digo-o para que fique claro de que lado da mesa ele está, e vale a pena ouvi-lo na mesma.
Eu não vendo PPR, não recebo nada de nenhuma gestora, e não sei qual é o teu escalão de IRS nem se a tua coleta chega para os 400€. O que fiz foi pôr os dados em cima da mesa e dividir uma percentagem pela outra.
Tens um ou mais PPRs? Como está a TEC do teu?





