A lição 3 do Naval é construir um ativo que trabalhe sem ti. Código ou conteúdo, coisas que se replicam sem custo e que não precisam da autorização de ninguém.
Fiz isso. Este site é isso. Já teve meses com mais de 100 000 visitas, e continua a dar dinheiro todos os meses.
E eu continuo a alugar o meu tempo, tal e qual como antes.
Isto não é uma queixa nem é um desmentido do Naval. É a parte do processo que os artigos sobre ele nunca contam, e é a parte que muda a forma como se lê o resto.
Quem é, e porque é que vale a pena ler
O Naval Ravikant é investidor e uma espécie de filósofo por acidente. Investiu em mais de 200 empresas, incluindo a Uber e o Twitter. O que me prendeu não foram os sucessos dele, foi a clareza cortante com que pensa sobre riqueza e felicidade.
As ideias dele não são dicas para ficar rico. São princípios, e por isso é que ainda se leem cinco anos depois de eu lhes ter pegado. Ouvi-o em podcasts com o Tim Ferriss, o Joe Rogan e o Shane Parrish, e a maior parte das passagens que cito aqui está no Almanaque de Naval Ravikant, compilado pelo Eric Jorgenson. Cito-o em tradução livre, com o tratamento uniformizado com o resto do artigo.
Lição 1: procura riqueza, não dinheiro nem estatuto
Procura a riqueza, e não dinheiro ou estatuto. Riqueza é ter ativos que geram rendimento enquanto dormes. Dinheiro é a ferramenta que usamos para transferir tempo e riqueza. Estatuto é o teu lugar na hierarquia social.
O dinheiro é facilmente mutável: vem e vai. Podes receber 100 000€ num mês e, se os gastares, ficas na mesma com zero. O que interessa é garantir que o dinheiro que já tens passa a ser um trabalhador a tempo inteiro cujo único trabalho é gerar mais.
E há uma distinção que costuma passar despercebida nesta citação. A riqueza não se mede em euros, mede-se em opções. Quando o teu dinheiro trabalha por ti, e não só para ti, podes acordar e decidir o que fazes nesse dia. É isso e não o saldo.
O estatuto é o que o Naval separa com mais crueldade dos outros dois, e com razão: é um jogo de soma zero. Para alguém subir na hierarquia, alguém desce. A riqueza não funciona assim, porque nada me impede de ficar melhor sem que tu fiques pior.
Lição 2: não alugues o teu tempo, vende conhecimento
Não ficarás rico se continuares a alugar o teu tempo. Deves ter capital próprio, uma parte de um negócio, para ganhares a tua liberdade financeira. Mune-te de conhecimento único, responsabilidade e influência.
O “conhecimento único” é a parte prática desta lição, e a definição que funciona é esta: é aquilo que para ti é quase um jogo e para os outros seria trabalho.
Dou um exemplo que não dá dinheiro nenhum. Adoro correr, e corro com facilidade seis vezes por semana. Isso levou-me a várias maratonas. Consegues fazer um tempo melhor do que o meu? Provavelmente sim. Mas se não gostares de correr, vai ser sacrifício, e para mim bater recordes é divertido, pelo menos até os joelhos dizerem o contrário.
Agora um exemplo monetizável: este blogue. E se calhar, para ti, tocar guitarra, ou perceber de bicicletas ao ponto de as arranjares. Tu sabes melhor do que ninguém o que é que fazes na desportiva e que os outros fariam a suar.
O que a lição não diz, e devia: conhecimento único e conhecimento que escala não são a mesma coisa. Voltamos a isto no fim.
Lição 3: a alavancagem, e é aqui que eu tenho contas a prestar
A fortuna requer alavancagem. Alavancagem nos negócios provém de capital, pessoas e produtos sem grande custo de replicação, como código e conteúdos digitais. Código e média são alavancagens sem permissão. São a alavanca dos novos ricos.
A ideia é simples e é a melhor do livro. Há coisas que precisam de autorização de alguém, como capital ou pessoas para gerir. E há duas que não precisam: escrever código e criar conteúdo. Ninguém tem de te deixar.
Programar já faço noutros contextos, e gosto de escrever, por isso escolhi alavancar pelo conteúdo. Nunca me projetaria da mesma forma sem isso, e os números provam-no: já houve meses acima das 100 000 visitas, e não há maneira nenhuma de eu falar com 100 000 pessoas de outra forma.
E agora a parte que me obriga a corrigir a lição.
O site é um ativo e não é passivo. Os folhetos atualizam-se, as previsões do combustível fazem-se, os artigos escrevem-se, os comentários respondem-se. Não desligou os meus ganhos das minhas horas. Acrescentou horas.
Isto não faz do Naval um mentiroso. Faz de mim alguém que fez metade do percurso e que estava convencido de ter feito o todo. E dá para transformar essa confusão numa pergunta que serve para qualquer projeto:
A pergunta não é se o ativo dá dinheiro. É se ele continua a dar dinheiro num mês em que não lhe tocas.
Se a resposta for não, é um negócio, e um negócio é uma coisa boa. Mas não é o que o Naval está a descrever.
Um ativo que ainda precisa de ti todas as semanas não é alavancagem, é um segundo emprego com melhor marketing.
Digo isto sem desgosto nenhum, e é importante que se perceba porquê. A alavancagem foi real: o alcance existe, o rendimento existe, e nada disso teria acontecido com o meu tempo alugado a mais alguém. O que não veio junto foi a liberdade automática. Vieram opções, que é uma coisa mais pequena e mais verdadeira.
Lição 4: joga jogos de longo prazo com pessoas de longo prazo
Todas as dádivas da vida, seja na riqueza, relações, ou conhecimento, vêm como juros compostos. Procura uma área onde sintas que podes estar a longo prazo, criando também relações de longo prazo com pessoas que tenham a mesma perspetiva.
Qualquer projeto grande nasce de uma ideia e vive de um processo, e o processo leva tempo.
O Poupa Pilim nasceu em 2021 e durante muito tempo praticamente não teve visitas. Não desisti porque o que eu queria era um sítio meu onde escrever o que me apetecesse. Alguns resultados vieram entretanto, outros virão ou não. Se um dia tiver de deixar isto e começar outra coisa, faço-o com a consciência de que fiz o que queria.
Repara na relação entre esta lição e a anterior, que é a coisa mais útil das quatro. A alavancagem é o que multiplica, e o tempo é o que há para multiplicar. Um ativo com alcance grande e três meses de vida não vale nada; um ativo pequeno com dez anos vale bastante. É a mesma aritmética dos juros compostos, aplicada a coisas que não são dinheiro.
Quando começar
Hoje, uma vez que não pudeste começar ontem.
Investe em acabar cada dia a saber mais alguma coisa do que sabias quando acordaste. O Naval recomenda estudar microeconomia e teoria dos jogos, e no meu caso o instinto levou-me a outro lado, que foi aprender a fazer contas às coisas que pago. Cada um segue o seu.
O livro é gratuito, e de propósito
Quase tudo o que está aqui foi compilado pelo Eric Jorgenson no Almanaque de Naval Ravikant. O próprio Naval insistiu que fosse disponibilizado de graça para toda a gente, o que é um detalhe engraçado num livro sobre criar riqueza.
Podes descarregá-lo legalmente e sem pagar nada em navalmanack.com, e há traduções para várias línguas, incluindo português do Brasil.
Onde é que estas lições não chegam
Falta dizer a coisa mais desconfortável, e não é sobre mim.
Estas quatro lições foram escritas para pessoas cujo conhecimento único calha ser replicável. Código e conteúdo copiam-se ao custo zero, e é por isso que aparecem nos exemplos. Mas o conhecimento único de um enfermeiro, de um carpinteiro ou de um professor não se replica: é preciso estar lá.
Dizer a essas pessoas para “deixarem de alugar o tempo” é dizer-lhes para deixarem de fazer aquilo em que são boas. A lição 2 e a lição 3 encaixam com uma facilidade suspeita em quem trabalha ao computador, e não encaixam quase nada em quem trabalha com as mãos ou com pessoas.
O que sobrevive para toda a gente é a lição 1 e a lição 4: a diferença entre riqueza e estatuto, e a paciência. Essas não dependem da profissão de ninguém.
E fica ainda por resolver uma coisa que o próprio Naval diz e que eu não sei testar. A citação com que ele fecha é “quando tiveres muito dinheiro, irás aperceber-te que não era isso que procuravas em primeira mão”. Se calhar é verdade. Mas é uma frase que só se pode verificar depois de se ter muito dinheiro, e a essa altura já não serve para decidir nada.
Se quiseres continuar por aqui, tenho os 18 sublinhados do Warren Buffett, uma lista de livros e os 7 hábitos.
Aquilo que fazes na desportiva e que os outros fariam a suar: já alguma vez tentaste tirar rendimento disso?





