Deixar de fumar, o meu primeiro grande passo rumo à poupança

Como Deixar De Fumar

Em 2014 apaguei o último cigarro. Tinha fumado durante 8 anos e, até hoje, nunca mais.

Gastava à volta de 80€ por mês em tabaco, que dá uns 2,50€ por dia. Doze anos depois, são 11 520€ que não saíram da minha conta, e isso não é uma projeção nem uma promessa: é aritmética sobre tempo que já passou.

Doze Anos
80€ por mês, doze anos depois
A linha de baixo é facto. A de cima é o que teria dado se esse dinheiro fosse investido, e eu não o investi todo, o que faz dela uma hipótese e não um extrato.

Antes de continuar, uma coisa que convém dizer num artigo de poupança: o dinheiro não foi a razão principal, foi a única parte a que eu conseguia fazer contas. A razão principal é óbvia e não sou eu quem a deve explicar. Aqui não há nada de científico, é experiência minha, e o que se segue são as sete coisas que fizeram a diferença.

1. Comecei por perceber o que é que eu ganhava

Sentei-me e perguntei-me: o que é que eu ganho realmente com isto? A resposta era tripla, e só uma parte era dinheiro.

Saúde, porque deixava de sujeitar o corpo a substâncias sem valor acrescentado nenhum.

Dinheiro, e aqui fiz uma inversão que ainda hoje uso: em vez de pensar “poupo 80€”, passei a pensar “fui aumentado em 80€ líquidos”. Quantas pessoas conseguem um aumento desses ao fim de um ano?

Parar de inventar desculpas. Ou faltava dinheiro para fazer coisas com amigos e família, ou eu dizia que tinha de ir ali a um sítio quando na verdade só queria fumar longe de determinadas pessoas. Visto agora dá para rir, na altura era bem real, e não é fácil dar-se conta de que se anda a portar como um miúdo só para alimentar um vício.

Uma nota sobre o aumento de 80€

Vale a pena levar aquela inversão a sério, porque a aritmética está a favor dela mais do que parece.

Um aumento de 80€ no salário não te põe 80€ no bolso. Passa primeiro pela Segurança Social e depois pelo IRS. Um euro que deixas de gastar não passa por nenhum dos dois.

Aumento bruto necessário = a poupança a dividir por (1 − 11% de Segurança Social − a tua taxa marginal de IRS).

Para ficar com os mesmos 80€, precisarias de um aumento bruto entre uns 105€ e uns 155€, conforme o escalão em que estás. Quanto mais ganhas, mais desproporcionado fica, o que é o contrário do que a intuição diz. Se quiseres perceber melhor a parte da retenção, escrevi sobre isso noutro artigo.

2. Não troquei um vício por outro

Em 2014 o tabaco aquecido ainda não era coisa nenhuma. Mesmo assim, nunca pensei em transitar para outra coisa, nem sequer para pastilhas elásticas. A ideia era remover o hábito, não transferi-lo para algo que eu teria de remover mais tarde.

Sobre o tabaco aquecido, já que hoje é a pergunta que aparece sempre: fazer menos mal do que o tabaco convencional não é elogio nenhum. É dizer que é mau, ligeiramente menos mau. Não se quer passar do horrível para o medíocre.

3. Preparei-me para ser enganado por mim próprio

O cérebro é uma máquina de sobrevivência, e para ele a nicotina era uma necessidade. Nas primeiras semanas, a minha cabeça foi o meu pior inimigo.

Por isso criei um contra-argumento, e é a melhor coisa deste artigo inteiro. Em vez de “nunca mais vou fumar na vida”, que é assustador e parece impossível, o meu mantra passou a ser: “hoje não fumo”.

Uma decisão que tens de tomar uma vez para o resto da vida é impossível. A mesma decisão tomada só para hoje é fácil, e ao fim de doze anos o total é exatamente o mesmo.

Não é auto-engano. É reconhecer que a coisa que te está a custar é o tamanho do compromisso, e não o compromisso. E o tamanho é a única parte que dá para mudar sem mudar nada.

4. Usei o medo de desapontar alguém

A força de vontade é finita. A responsabilidade perante alguém de quem se gosta é quase infinita.

Fui de cabeça: liguei à minha mãe. Não há pessoa que eu odiasse mais desapontar. Quando aquela chamada acabou, ficou um contrato celebrado na minha cabeça, e não se falha à palavra com a mãe.

Dos sete passos, é provavelmente o mais poderoso, e é também o único que não custa dinheiro nem esforço nenhum.

Há quem recomende anunciar nas redes sociais. Podes experimentar, mas atenção ao que estás mesmo a fazer: as redes são um centro de aprovação, e se ninguém quiser saber do teu anúncio, ou se as pessoas certas não reagirem, isso pode sair pela culatra e deixar-te pior do que estavas. Conta antes à pessoa mais importante da tua vida, aquela que não podes mesmo desapontar. Sei que é difícil, e se calhar essa pessoa nem sabe que fumas, mas não há nada de mau que possa sair dessa conversa. Na pior das hipóteses fica triste, e a seguir fica orgulhosa da confissão.

5. Tornei a vitória visível

Deixar de fumar parece uma viagem de sacrifício. Decidi transformá-la numa viagem de recompensas que se viam.

Gastava 2,50€ por dia. Peguei num caderno e todos os dias escrevia o novo total: 2,50€, 5€, 7,50€, 10€. Fi-lo enquanto achei que precisava, e depois pensei numa coisa que quisesse mesmo ter e comprei-a. Foi um portátil novo. Durante anos, sempre que olhava para ele, via o resultado de ter deixado de fumar. De outra maneira não o teria comprado.

Repara no que o caderno fazia, porque não era motivação. Era converter uma ausência num objeto. Não fumar não se vê, não se sente e não dá prazer nenhum, e um número que sobe todos os dias é a única forma de dar corpo a uma coisa que consiste em não acontecer. É o mesmo raciocínio que uso quando penso no custo real de uma subscrição mensal: o pequeno repetido só ganha peso quando é somado.

6. Aceitei que podia engordar

Não é mito nenhum. Perdes muitos minutos do dia a fumar e, quando deixas, esse tempo fica livre e tu não sabes bem o que fazer com ele. Atacar a despensa é uma das coisas que se fazem, e é normal.

Nos primeiros dias eu não me preocuparia muito com isso, porque estarias a combater duas coisas ao mesmo tempo e a probabilidade de perder as duas é maior do que a de ganhar uma. Com naturalidade chega o tempo de ter mais cuidado com a alimentação e de preencher aquele tempo de outra maneira.

Se quiseres controlar, pesa-te uma vez por semana e regista. É o mesmo mecanismo do caderno, aplicado ao contrário.

7. Mudei de identidade

A mudança mais funda foi mental. Deixei de me ver como um fumador em abstinência e passei a ver-me como um não fumador.

A diferença não é de vocabulário. Um fumador em abstinência está a resistir a alguma coisa todos os dias, e um não fumador não está a resistir a nada, porque a coisa deixou de estar no menu. Em vez de pensar no incómodo de não fumar, pensava no prazer de respirar fundo, de saber melhor a comida, de ter mais energia.

E lembrei-me de uma coisa banal que ajuda: a maior parte das pessoas no mundo não fuma e vive perfeitamente bem. Se elas conseguem, eu porque não.

O que este artigo não é

Não é um método. É o que resultou comigo, e há gente que precisa de ajuda médica para isto, o que não tem nada de vergonhoso e está fora do que eu sei.

E os 11 520€ não estão numa conta à minha espera. Foram-se diluindo pela vida, como acontece a quase todo o dinheiro que se deixa de gastar e que não é encaminhado para algum lado. É por isso que o gráfico tem duas linhas em vez de uma: a de baixo aconteceu, a de cima é o que teria acontecido se eu tivesse feito a segunda parte do trabalho, que é decidir para onde vai o dinheiro que deixa de sair.

Hoje não fumas. Amanhã contas à pessoa mais importante da tua vida, e também não fumas. No dia seguinte já não é uma decisão só tua.


Parceria Poupa Pilim e Prozis

Comentar

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Subir ao topo