Porque é que um livro de 1926 sobre a Babilónia ainda funciona

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Um livro de finanças pessoais comprado em 2015 já não serve para nada. As taxas mudaram, os produtos que ele recomendava foram descontinuados, e metade da fiscalidade que explicava foi reescrita.

O homem mais rico da Babilónia foi escrito em 1926, passa-se numa cidade que já não existe há milénios, e continua a servir na íntegra.

Vale a pena perceber porquê, porque a razão não é o livro ser genial. É uma coisa mais simples e mais útil do que isso.

O que lá está e o que lá não está

O livro tem 128 páginas e não traz nada de disruptivo. Relembra as lições mais básicas que há: paga-te a ti mesmo, vive com menos do que ganhas, aceita conselhos de quem sabe do que fala, e põe o dinheiro a trabalhar.

Mas repara na lista do que ele não contém:

O que o livro temO que o livro não tem
Proporções (guarda 10%)Produtos financeiros
Comportamentos (gasta menos do que ganhas)Taxas de juro
Ordem de operações (paga-te primeiro)Impostos
Avisos (não invistas no que não percebes)Instituições, bancos, corretoras
Uma históriaPaíses, moedas, leis

Nada do lado direito existe no livro, e é por isso que nada nele pode caducar. Não há lá uma única coisa que o mundo possa mudar.

Um conselho sobre dinheiro dura tanto tempo quanto durar a coisa a que se refere. Este livro só se refere a proporções e a comportamentos, e esses não têm data.

E é exatamente por isso que ele não te serve para decidir nada

Aqui está o outro lado da mesma moeda, e é a parte que os artigos entusiásticos sobre o livro nunca dizem.

O livro diz-te para guardares 10%. Não te diz onde. Não pode dizer, porque não sabe o que é um Certificado de Aforro, um PPR ou um ETF, e se soubesse já estaria errado.

A durabilidade e a inutilidade prática são a mesma propriedade vista de dois lados. Um conselho que sobrevive a cem anos é, por construção, um conselho que não menciona nada de concreto. Se quiseres o concreto, tens de o ir buscar a outro lado, e esse outro lado vai estar desatualizado daqui a três anos.

É assim que eu uso o livro: ele dá a proporção, e a proporção é para a vida. O produto vai-se buscar todos os anos.

As seis lições, com o sítio onde o concreto está hoje

Guarda 10% de tudo o que ganhas. Divide o salário líquido por dez e trata esse valor como uma despesa, não como uma sobra. É a única maneira de juntar capital, seja para uma emergência, seja para investir.

Hoje: esse dinheiro precisa de estar acessível, e a escolha entre Certificados de Aforro, depósito a prazo e ETFs decide-se pela fiscalidade e pela liquidez. Um PPR não serve para a parte de emergência, porque o dinheiro fica preso.

Controla as tuas despesas. Define um orçamento para tudo: essenciais, comodidades e luxos. Não deixes que um luxo tome conta da maior parte do dinheiro, mas também não te prives dele por completo, sob risco de nunca usufruíres de nada.

Hoje: na primeira fase é difícil saber quanto precisas para quê, e a única saída é registar tudo. Uso a aplicação Wallet, e ao fim de um mês o relatório mostra para onde foi o dinheiro. A ferramenta é o menos importante e daqui a dez anos se calhar já nem existe.

Multiplica o teu dinheiro. Não dependas só do salário. Investe, e investe também os rendimentos do que investiste. É daí que vem a bola de neve.

Hoje: um PPR é um princípio razoável, com a ressalva de que o que decide se ele presta é a comissão anual, e não a publicidade.

Investe de forma sensata. Não metas dinheiro em produtos que não percebes. Se pedires aconselhamento, procura quem perceba mesmo do assunto e quem não tenha interesse no teu dinheiro.

Hoje: esta é a lição que envelheceu pior, e não por culpa do livro. Na Babilónia, quem sabia de dinheiro era o emprestador de dinheiro. Hoje, a pessoa que mais sabe do produto é quase sempre a pessoa que o vende, e essas duas coisas deixaram de poder ser separadas com a facilidade que o livro assume. Mesmo depois de aconselhado, tens de perceber onde estás a pôr o dinheiro, porque o risco é sempre teu e nunca de quem aconselhou.

Nunca deixes de aprender. Continuar a estudar e a praticar é o investimento com maior valor esperado que existe.

Hoje: livros de gente que fez as coisas são um bom princípio, e tenho uma lista. Mas repara na assimetria: aprender com quem já não tem nada a ganhar contigo é diferente de aprender com quem tem tudo a ganhar. Tem cuidado com quem ganha demasiado com aquilo que te está a ensinar.

Vais errar. É natural errar nos investimentos e na gestão das poupanças. Toda a gente passou por isso, e quem não passou vai passar.

Hoje: o erro acontece só por se tentar, e serve para uma coisa concreta, que é definir as fronteiras do que estás disposto a arriscar. Sem essas fronteiras não há confiança nenhuma para construir em cima.

A filosofia não é dele, e isso é o argumento

Uma coisa que reforça tudo o que está acima: nada nesse livro é original, e o autor sabe disso.

A mesma sabedoria aparece no estoicismo do Zenão de Cítio, há 2 300 anos, e aparece outra vez no Charlie Munger, o sócio do Warren Buffett:

Gasta cada dia a tentar ser um pouco mais sensato do que eras quando acordaste. Com o passar dos dias, se viveres tempo suficiente, conseguirás obter o que mereces.

Ideias que aparecem em sítios que não se conhecem uns aos outros, separados por milénios, não são geniais. São aquilo que sobra depois de todo o resto ter sido tentado e ter falhado. É o mais parecido com prova que existe em matéria de conselhos sobre a vida.

O que o livro não sabe, e não tem como saber

Falta a ressalva grande, e é sobre o mundo dele e não sobre o nosso.

No mundo da Babilónia não há inflação, não há impostos e não há Estado. Guardar 10% ali queria dizer enterrar ouro, e o ouro enterrado continuava a valer o mesmo dez anos depois.

Hoje, 10% guardados numa conta à ordem perdem valor todos os anos, e o livro não tem maneira nenhuma de te avisar disso. A proporção sobrevive e o destino não. É o corolário do artigo inteiro a acontecer em direto: a parte que dura é a que não menciona nada, e a parte que não menciona nada é a que não te resolve nada sozinha.

E há ainda o mais óbvio, que é dito com todas as letras porque me parece indecente não o dizer: guardar 10% pressupõe que sobrem 10%.

Onde o encontrar

Há mais para conhecer lá dentro: o retrato da cidade, as cinco leis do ouro, as tábuas de argila. A história tem um cariz muito bíblico e é divertida, e o mais provável é acabares por devorar o livro de uma vez.

Está à venda na Wook e na Bertrand, e sobre chegar à independência financeira em Portugal também falei com quem já lá chegou.

Um livro que se lê num dia e que se pode passar aos filhos. Não há muitos assim.


Parceria Poupa Pilim e Prozis

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