O meu carro tem 25 anos. Leva-me do ponto x ao ponto y, que é aquilo para que serve um carro, e não me ocorre o que é que um carro novo faria a mais.
Isto costuma ser lido como frugalidade, e não é bem isso. É que eu já sei de antemão que um carro novo não me traz felicidade nenhuma, e sei também que nada bate o descanso de não ter prestações para pagar ao fim do mês. Trocar a segunda coisa pela primeira seria um mau negócio mesmo que eu pudesse pagá-lo.
Começo por aqui porque a lista que se segue costuma ser apresentada ao contrário.
O título já diz a coisa certa, e os artigos ignoram-na
Repara na palavra: manter. Não é ficar rico, é continuar.
Quase tudo o que se atribui aos ricos em matéria de hábitos não serve para lá chegar. Serve para não voltar para trás. São hábitos defensivos, e é por isso que funcionam para quem tem muito e para quem tem pouco, ao contrário das histórias de enriquecimento, que só funcionam para quem já ganhou.
Estes hábitos não te tornam rico. Tornam-te difícil de empobrecer, que é uma coisa diferente e bastante mais útil.
Faço os sete, e digo já em que é que cada um se traduz em minha casa, porque um artigo destes escrito na terceira pessoa sobre milionários anónimos não vale o tempo de ninguém.
| Hábito | Em que é que isso se parece, na prática |
|---|---|
| Viver abaixo das possibilidades | O carro tem 25 anos, e não compro o que não posso pagar |
| Investir, e não só poupar | PPR, ETF, Certificados de Aforro e um pouco de cripto, logo no dia do salário |
| Ter várias fontes de rendimento | O emprego e este site, que não é rendimento passivo nenhum |
| Dívida com alavancagem quando as contas mandam | Não tenho dívidas, e alavancava-me se as contas dissessem que sim |
| Medir o valor da hora | Sei quanto vale a minha e uso isso para decidir tarefas |
| Nunca parar de aprender | Leio quem percebe mais do que eu, e escrevo as contas aqui |
| Andar com quem tem a mesma ambição | Não é ir a eventos, é com quem passo o tempo |
E não, não sou rico
Convém dizer isto agora, porque é a pergunta óbvia a seguir a uma tabela onde está tudo preenchido.
Faço os sete e não sou rico. Isso não prova que não funcionam, da mesma maneira que alguém não os fazer e ficar rico não provaria que são inúteis. A ausência de prova não é prova de ausência. É um processo demorado: quase tudo o que está nesta lista só dá sinal ao fim de muitos anos, e há coisas aqui que só se notam no dia em que fazem falta.
O que fazer as coisas certas faz é aumentar as probabilidades. Não garante nada, e quem prometer garantias com uma lista de sete hábitos está a vender outra coisa qualquer.
É por isso que a tabela acima não é um currículo. É só a declaração de quem está a escrever.
1. Viver abaixo das possibilidades
O carro é o exemplo mais visível, mas a regra é anterior a ele: não compro coisas que não posso pagar. Não é uma questão moral, é que comprar o que não posso pagar significa comprometer meses futuros com uma decisão tomada numa tarde.
E em tudo o que compro verifico a relação entre a qualidade e o preço, o que não é o mesmo que procurar o mais barato. O mais barato que se estraga em seis meses foi comprado duas vezes.
A parte que a maioria dos artigos não diz é que isto não é sacrifício nenhum quando a coisa não te dava felicidade de qualquer maneira. O carro novo perde o brilho em poucos meses, e sobre esse mecanismo já escrevi noutro artigo. O que não perde brilho é não dever nada a ninguém.
2. Investir, e não só poupar
Mal recebo o salário, a primeira coisa que faço é distribuir um montante por PPR, ETF, Certificados de Aforro e criptomoedas, estas últimas com exposição baixa.
Repara na ordem, que é a coisa importante desta secção: primeiro, não sobra. O dinheiro sai antes de eu ter oportunidade de o ver na conta e de lhe arranjar um destino, e essa inversão é o hábito inteiro. Está explicada em condições nas 9 regras e não a repito aqui.
Sobre os produtos, cada um tem artigo próprio e uma conta que o justifica: os PPR valem-se pela comissão e pela dedução, e a escolha entre Certificados de Aforro, depósitos e ETFs decide-se pela fiscalidade e pela liquidez, não por opinião.
A cripto fica de fora dessas contas, e fica de propósito. Tenho exposição baixa porque não sei fazer-lhe conta nenhuma, e a única regra que aplico ali é a de não pôr lá dinheiro cujo desaparecimento me obrigasse a mudar alguma coisa.
3. Ter várias fontes de rendimento
Tenho duas: o meu emprego e este site.
E é aqui que vale a pena estragar a promessa que estas listas costumam fazer, porque a minha segunda fonte não se parece nada com o que elas descrevem. Um segundo rendimento raramente é passivo. Este site dá algum dinheiro e dá bastante trabalho: os folhetos, as previsões do combustível, os artigos, as respostas nos comentários. Não desligou os meus ganhos das minhas horas. Acrescentou horas.
O que ele faz é outra coisa, e é defensiva: se uma das duas parar, não para tudo ao mesmo tempo. Quem depende de uma fonte não fica pobre por gastar mal, fica pobre por essa fonte parar. É diversificação de risco, não é uma máquina de fazer dinheiro enquanto se dorme.
Daí sai a pergunta que ninguém faz a um negócio paralelo:
A um segundo rendimento não se pergunta quanto rende. Pergunta-se quanto rende por hora que consome, e compara-se com o valor da hora do trabalho que já tens.
Muitas atividades paralelas não sobrevivem a essa divisão, e é melhor descobri-lo antes de lhes dar dois anos.
Para quem só tem uma fonte, e é a esmagadora maioria das pessoas, a resposta defensiva ao mesmo risco não é montar um negócio: é o fundo de emergência, que resolve o mesmo problema e está ao alcance de muito mais gente.
4. Dívida, e o que a torna aceitável
Não tenho dívidas. Mas se me aparecesse uma ideia de negócio que precisasse de capital inicial forte, alavancava-me com todo o gosto, desde que as contas me dissessem que o retorno era muito bom. E o mesmo se aplica a uma casa, se aparecer um bom negócio.
Isto parece uma contradição e não é. Aqui está o que a desfaz:
A dívida não é boa nem má. É um preço. E a diferença entre a que faz sentido e a que não faz não é a taxa de juro: é se houve uma conta antes.
Um crédito ao consumo para um telemóvel não tem conta nenhuma por trás, porque não há retorno para calcular. O telemóvel não gera nada, e vale menos todos os dias. Um empréstimo para comprar uma coisa que produz rendimento tem um número dos dois lados, e dá para comparar.
Não ter dívidas hoje não é uma posição de princípio da minha parte. É o resultado de ainda não me ter aparecido nada que passasse no teste.
E há a parte que não entra na aritmética e que também conta: uma prestação ocupa cabeça todos os meses, e há decisões que se tomam pior quando se tem de dizer que sim ao trabalho seguinte.
5. O valor da hora
Aqui a lista original diz uma coisa que eu acho inútil, que é que os ricos “não trocam horas por dinheiro”. A maior parte das pessoas troca, incluindo eu, e dizer-lhes para deixarem de trocar não é um hábito, é um desejo.
O que eu faço é outra coisa e está ao alcance de qualquer pessoa: meço o meu salário em dinheiro ganho à hora, e antes de decidir uma tarefa penso nas horas que ela me vai ocupar e no que vale a minha.
Serve para tudo. Serve para saber se compensa conduzir mais vinte minutos por um posto mais barato, se compensa a portagem, se compensa fazer eu ou pagar a alguém. E a hora não é o salário a dividir pelas horas de contrato, que é o erro que quase toda a gente faz. A conta a sério está noutro artigo, e dá um número bastante mais baixo do que se espera.
6. Não parar de aprender
Não paro de ler, e tento aprender com os melhores. O Warren Buffett é o exemplo óbvio, o Naval Ravikant é outro, e tenho uma lista de livros que resistiram ao teste de eu voltar a eles.
Vale a pena separar duas coisas que costumam vir coladas. Ler sobre dinheiro não é acompanhar mercados. Uma coisa é aprender como funciona um imposto, uma comissão ou um juro composto, e isso serve para o resto da vida. A outra é seguir notícias, e serve sobretudo para se estar entretido.
Também há gente em Portugal a fazer isto bem, como o Pedro Andersson, com quem falei aqui no site. E as Contas Feitas daqui do site são onde vou pondo as contas que faço, que é a forma que arranjei de aprender a sério: só se percebe mesmo um mecanismo quando se tem de o explicar.
7. Andar com quem tem a mesma ambição
O meu networking não é o das listas. Não vou a eventos do setor à procura de oportunidades de investimento e não tenho mentor. É mais simples do que isso: ando com pessoas que têm a mesma ambição que eu.
Vale a pena separar as duas versões, porque só uma delas está ao alcance de toda a gente. A que as listas vendem exige capital, agenda flexível e um setor onde circulem negócios. A outra não exige nada: ninguém precisa de dinheiro para escolher com quem passa o tempo.
E o mecanismo não é o que se anuncia. Não é acesso a oportunidades, é calibração. As pessoas à tua volta decidem o que te parece normal, e o que te parece normal decide quase tudo o resto sem tu dares por isso. Se toda a gente à tua volta troca de carro de cinco em cinco anos, um carro de 25 anos parece uma esquisitice que é preciso justificar. Se ninguém à tua volta faz isso, o mesmo carro parece uma decisão.
É o hábito mais silencioso da lista e provavelmente o que mais trabalho faz, porque não age sobre nenhuma decisão em particular. Age sobre a régua com que medes todas as outras.
Os mitos que vale a pena arrumar
“Os ricos são grandes gastadores.” Há bastantes que não são, e o livro clássico sobre isso é O milionário mora ao lado, do Thomas Stanley e do William Danko (Fnac), que descreve gente com património alto e carros usados.
“É preciso correr grandes riscos.” Não é o risco que distingue, é a conta. Uma decisão arriscada com números dos dois lados e uma aposta às cegas parecem iguais de fora e não são.
“Os ricos não têm dívidas.” Têm, e é o ponto 4 deste artigo.
O que nada disto resolve
Há uma coisa que os artigos sobre hábitos dos ricos nunca dizem, e é a mais importante de todas: os sete pressupõem que sobra alguma coisa ao fim do mês.
Investir primeiro pressupõe haver o quê investir. Viver abaixo das possibilidades pressupõe que as possibilidades estejam acima do necessário. Para quem faz contas todos os dias para chegar ao dia 30, isto não é uma lista de hábitos, é uma lista de coisas que outras pessoas conseguem fazer, e apresentá-la como escolha é uma forma discreta de culpar quem não tem margem.
Onde estes hábitos ajudam mesmo é na faixa em que há alguma folga e ela desaparece sem se saber para onde foi. Aí a diferença entre quem fica com ela e quem não fica é quase toda de sistema, e não de rendimento.
E mesmo aí continua a ser uma questão de probabilidades. Uma doença, um despedimento ou uma década má nos mercados não pedem licença aos sete hábitos de ninguém.
Quantos destes sete é que fazes hoje, sem contar com os que gostavas de fazer?





